Onde Karl Ove Knausgård se engana

006

Sjelens Amerika. Livro de ensaios de Karl Ove Knausgård. Acabada a leitura em Oslo (mais demorada que o costume) olho o objecto pousado na mesa. Deixa uma memória meio triste, amarga.

No domingo das eleições levantei cedo. Li os jornais e o mail, a blogosfera. Tempo cinzento, chuvoso. Em cima de outra mesa, os ensaios, convidativos. Como apetecia o sofá e café solúvel, ver a chuva bater na vidraça. Não sair para a chatice do supermercado, as caras fechadas, as compras do almoço, meter gasolina, fazer a viagem para norte. Ver o casario da aldeia e os campos abandonados. Ouvir e ver o chiste e malícia no café.

Na quarta, ao almoço, porque falavam do que a isto chegou e da cambada de ladrões todos o mesmo, ninguém se aguenta, perguntei se queriam algum conselho sobre em quem votar. Que não, «a gente se calhar nem vai votar». « A tu mãe nã gosta do Costa, mas nã sei s’ela lá quer ir»… A evasiva esperada. Perguntei por confirmar a resposta, sabendo (há muito e de ginjeira), qual seria.

E no domingo, porque também lá estou inscrito como eleitor, lá fui fazer o almoço e ouvir as queixas. E votar. Preparei as coisas (há sempre as exclamações dela «oh rapaz fazes sempre tudo tão bem e tão depressa») descasquei e cortei, picado e estrugido, temperos e voltas de colher, fogo baixo. E no intervalo até que ficasse pronto, porque a junta é ali a dois passos,

– Vou ali abaixo votar. Já votaram?

– Já, já lá fomos – a resposta curta. Coisa que sabia de antemão.

Despacharam-se antes que eu chegasse com medo que pudesse, através de conversa, tentar influenciar a escolha. Ou privá-los da breve alegria do bandwagoning, das poucas que lhes restam. Ela por pertencer ao círculo das que frequentam missas e novenas. Ele por admiração ao construtor que arranjou muito. Não paredes e alicerces, telhados e beirais, obviamente.

E no fundo há ali uma espécie de lógica que não é de todo desprovida de fundamento. Ninguém na rua me conhece por doutor. Não trago BMW de série 5. Dos criados lá em casa sou aquele que não deixa o talão da caixa de supermercado em sítio visível nem carrego à volta mais do que trouxe. Nem o que compra do mais em conta. Não abalo a laurear a pevide deixando a velha de volta das panelas para voltar à hora de sentar à mesa. Em suma, nunca soube governar a vida própria. Porque saberia escolher o governo de todos?

Volto a casa ao fim da tarde através de aldeias desertas com os seus cafés e tabernas desolados. Torno a pegar nos ensaios de Karl Ove Knausgård antes do espectáculo da noite eleitoral com os passos de dança e o esganiçar de José Rodrigues dos Santos na RTP I. Pedro Magalhães mais gordo do que me lembrava. Passo os olhos no pela breve resenha histórica que Stein Rokkan fez num subcapítulo de Citizens, Elections, Parties (Cap. I,1 – The instituional settings and the structural restraints – a páginas trintas e tais) sobre a adopção do voto secreto nos alvores da democracia.

No ensaio «A Cauda Castanha – Den Brune Halen» Karl Ove Knausgård,

004

com o desassombro com que trata os temas mais desassombrados, sustenta que cagar é a única actividade em que o indivíduo se isola, procurando fugir aos olhares quer da sociedade quer até dos que lhe estão próximos na própria casa onde vive. Que tal como a morte está fora da vida, cagar está fora da vida social. Cagar é fechar a porta sobre si mesmo e sobre o próprio corpo, expelir os dejectos em isolamento. Que a Karl Ove Knausgård tenha escapado o acto de votar é capaz de ser fruto das paragens em que cresceu e viveu.

Sobre soliplass

email: friluftogvind@gmail.com
Esta entrada foi publicada em Uncategorized com as etiquetas , , , , . ligação permanente.

8 respostas a Onde Karl Ove Knausgård se engana

  1. Que enorme prazer ler-te, companheiro. Muito, muito bom.

  2. soliplass diz:

    Benevolência tua. Desculpa qu’alquer coisinha vir prá’qui arengar de coisas tristes…

  3. Quando li o teu texto, à tarde, estive prestes a deixar aqui o esboço de um sorriso, mas desisti, não chegava, sabia que não era suficiente. Vinha isto (da insuficiência, e agora vou avançar/recuar, não sei, sobre o autor e muito daquilo que somos, naquilo em que nos tornámos, e parecerá que me desvio do assunto, mas não desvio, apanho um atalho) a propósito das críticas demolidoras sobre o autor, que nunca li (obra) a não ser em entrevistas de longo fôlego e onde sempre encontrei um cidadão correcto, provavelmente demasiado frontal para a cobardia que grassa por toda a parte. Eu, que votei em branco, gosto excessivamente do negrume que o assola para deixar aqui somente um esboço de sorriso.

    (e que bom teres reaparecido, mesmo que seja um intervalo entre tachos, bagas, cavacos 🙂

  4. soliplass diz:

    Isso das críticas demolidoras não há que lhes dar demasiada importância. Por mim passei por elas como gato por brasas. Há sempre a mania de decretar no rectângulo sobre este e sobre aquele. Infelizmente para os legisladores do gosto cada qual lê o que quer ou lhe agrada, ou o que acha que lhe traz proveito, o resto são balelas.

  5. «Dos criados lá em casa sou aquele que não deixa o talão da caixa de supermercado em sítio visível nem carrego à volta mais do que trouxe. Nem o que compra do mais em conta. Não abalo a laurear a pevide deixando a velha de volta das panelas para voltar à hora de sentar à mesa. »

    A minha mãe não escreveria melhor. Parece uma descrição dos meus tios. 🙂

  6. «Dos criados lá em casa sou aquele que não deixa o talão da caixa de supermercado em sítio visível nem carrego à volta mais do que trouxe. Nem o que compra do mais em conta. Não abalo a laurear a pevide deixando a velha de volta das panelas para voltar à hora de sentar à mesa.»

    A minha mãe não escreveria melhor. Parece uma descrição dos meus tios. 🙂

  7. soliplass diz:

    Parece a descrição 1/4 do país se calhar. E (parafraseando Gedeão) o mais que não se diz por ser verdade.

  8. Estamos em sintonia: o mais que não se diz por ser verdade.

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s