motor-car, o romance of travel e essas coisas

“The motor-car has restored the romance of travel.

Freeing us from all the compulsions and contacts of the railway, the bondage to fixed hours and the beaten track, the approach to each town through the area of ugliness and desolation created by the railway itself, it has given us back the wonder, the adventure and the novelty which enlivened the way of our posting grandparents. Above all these recovered pleasures must be ranked the delight of taking a town unawares, stealing on it by back ways and unchronicled paths, and surprising in it some intimate aspect of past time, some silhouette hidden for half a century or more by the ugly mask of railway embankments, and the iron bulk of a huge station.”

São as famosas primeiras linhas de A Motor-Flight Through France, de Edith Wharton. Nem sempre, porém, os carros nos livram de alguns sucedâneos da “ugly mask of railway embankments, and the iron bulk of a huge station”. Foi nisso que pensei ao vê-la caminhar protestando (não conseguia ainda bem perceber sobre quê) a enfiar os tacões de palmo e meio nos buracos do pavimento do parque, dirigindo-se à caixa do estacionamento. Mas vinha pujante de ancas cinquentonas e cabelo negro-corvo sobre o corvo-negro das vestes (malha em cima, licra em baixo) por onde corriam penduradas correntes e chocalhos de luzidio pechisbeque. A cara, um vale do Tejo depois das cheias…

Queixava-se em uivos que com tanto espaço lhe tinham deixado o jipe a trancar o carro. E ia armando o escarcéu enquanto pagou à minha frente. Atrás, perdido de riso, olhava o caixa prestes a desarmar-se também. Enquanto ela rodou nos calcanhares paga a conta, ainda a pontos de ouvir, disse ao pobre homem – «e ainda por cima qualquer dia fazem por cá a burka obrigatória!». Desarmou-se o de vez o tipo, abafando o riso a custo. Não sei se ela ouviu porque batia os tacões com quanta força as canetas lho permitiam – «e solas de borracha, que parece tal e qual o Regimento de Cavalaria de Mulas de Alpiarça! Lembra-se de como era por’í, por essas calçadas?».

Enxugando os olhos na manga da camisa, as moedas do troco na mão, pôs por fim o dedo sobre os lábios ou impondo-me o silêncio ou temendo que ela voltasse. Atrás, na fila, um velhote composto ria também à sucapa. Quebrando as regras do protocolo o da caixa tratava-me por pá. «É pá, porra, a gente não se pode tar assim a rir dos clientes.»

Quando saí acelerava ela muito o fiat punto. Temi o atropelamento.

Sobre soliplass

email: friluftogvind@gmail.com
Esta entrada foi publicada em Uncategorized. ligação permanente.

2 respostas a motor-car, o romance of travel e essas coisas

  1. hmbf diz:

    Isto é muito bom: “A cara, um vale do Tejo depois da cheias…” 🙂

  2. soliplass diz:

    depositasse o aluvião cremes e sebos em vez de lodos a imagem era mais justa

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s