Projecto de Lei

Frigorífico vazio (regresso a Oslo) subi ao restaurante para o jantar. É estabelecimento relativamente simples com comida franca e preço justo. Normalmente afastaria a clientela de Deus Pátria e Família. Mas nos últimos tempos por ali se espraiam (também as famílias numerosas, gonçalos de quatro anos permantentemente no iPhone) gentes de sucesso e carro luzidio. Ainda não percebi porquê mas é um facto.

Talvez por gostar de andar desfardado (não sou identificável como vendedor de automóveis ou funcionário de repartição, professor de estatística) trago blusão de tela Carhartt, camisa de lã Marlboro Classics (fiel à marca em metade das que tenho, algumas velhas que só já para cama de cão) ganga e botas. Espero pela minha vez, a empregada indica-me uma mesa ao lado de um casal. Já tenho o blusão pendurado na cadeira, prestes a sentar-me, quando a bicha me fuzila com o olhar. Abaixo-lhe o nível do sítio, certamente, talvez o discutir sereno da última manchete do Correio da Manhã, o que disse ainda hoje de manhã a Júlia Pinheiro, o último prognóstico do Bruxo de Fafe?…Que destino mereceria eu? Restaurante onde sou cliente habitual e estimado ou republicano em praça de toiros de Badajoz Agosto de 36?

Com discrição peço à simpática empregada que me sente noutro lado. A ferver. Há gente que não compreende que, ao frequentar um estabelecimento de restauração, ainda que comprando um serviço, estamos em casa alheia. Há que respeitar a propriedade e o negócio de outrém. Porque disso vivem, porque nisso investiram o que tinham e não tinham, porque desde manhã ao escolher as compras até a horas tardias quando se varre a sala é um sem número de horas em pé e de correrias. Nada nos dá o direito de hostilizar a demais clientela. Demarcar territórios, tratar mal os empregados, incomodá-los com pedidos estapafúrdios quando em correria para servir todos a tempo e horas, pagar com multibanco e esquecer a gratificação. Porque há gente que tem a impressão que o rasto de perfume, gritaria ou prepotência que deixa a sotavento passa por gorjeta. Vez após vez vejo a destruição de negócios que prestam bom serviço por atitudes destas. Abancam, fazem de casa alheia casa sua.

A última escandaleira que por lá vi foi em final de Taça. Mesa corrida, dúzia (ou por aí) de convivas. A ver o jogo, jantando. Para comprar licenciosidade, meia dúzia de garrafas de tinto cuidadosamente abaixo dos dez euros mas com direito a copo de pé alto, volumoso. E volumoso o vociferar. «Filho da puta», o árbitro «atão nã é falta caralho?», «foda-se, falha um lance destes, caralho?», «aquele conas anda ali a fazer o quê? foda-se, não quer correr entra outro caralho, é assim ou não é?» Punhadas na mesa, saltos nas cadeiras a cada lançe falhado. As outras mesas a aguentar o suplício. E cada um deles com os ventres de volume e peso igual ao resto do corpo. Se não maior.

É um problema nacional. Grave. Por mim resolvia-se com uma lei simples. Quem fosse apanhado a gritar em cafés ou restaurantes durante jogos de futebol tinha sentença límpida. Cronometrava-se o jogador de futebol mais rápido do campeonato. Qualquer um apanhado a gritar em sítio público que não fosse capaz de correr a distância de dois comprimentos de um campo de futebol em metade do tempo do jogador mais rápido, cinquenta chicotadas em praça pública. Gritar por gritar, que seja a sério e educativo.

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4 respostas a Projecto de Lei

  1. Pingback: Meu caro amigo. | vida breve

  2. arménio pereira diz:

    … talvez tentar a diminuição da densidade de écrans de TV por comensal?

  3. soliplass diz:

    Talvez. Por todo o lado é uma invasão de plasma. Como de botox (e apenas refiro o que anda a descoberto)…

  4. alveitar diz:

    Como te compreendo, amigo. Alveitar

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