Liberdades e desaconselhamentos

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Do aclamado e nomeado para prémios Quanto Mais Depressa Ando Mais Pequena Sou ficou uma má memória. O livro de Kjersti Annesdatter Skomsvold pareceu-me (na altura em que o li) uma das maiores chuchadeiras que li em língua norueguesa. Disso me queixei à livreira minha vizinha em Oslo que mo tinha vendido na véspera, quando me perguntou a opinião. Sugeri-me que o devolvesse e que escolhesse outro, sem custos. E ficou a memória menos má, associada a esse episódio de gentileza. A história do livro é a de uma anciã triste e solitária confinada a um pequeno apartamento e a quem resta pouco mais que memória.

É um livro mau? Não. Por mais que me tivesse desagradado na altura, é um livro bom. Dá voz ao tipo de pessoa que quem ninguém presta mais atenção, que ninguém ouve. Como qualquer instituição representativa traz ao conhecimento da sociedade (ou pelo menos da sociedade que lê) a solidão e o sofrimento alheio.

De facto, na segunda-feira enquanto me dirigia à Bertrand do shopping de Santarém fui abordado por uma anciã que me pediu dinheiro para comer. Dei-lhe o dinheiro e porque se dirigiu imediatamente para o café mesmo ao lado segui-a, pedindo que guardasse o que tinha recebido e que aceitasse que eu lhe pagasse o que tivesse vontade de comer. Vi desaparecer o croissant de chocolate a boa velocidade e o açúcar da bica ser sorvido no fim do café engolido. E invejei que em livros desagradáveis  houvessem Kjerstis Annesdatters Skomsvolds portuguesas que cronicassem aquela fome velha, como a dona. Que lhe dessem voz.

É-me sempre difícil desaconselhar um livro. Por razões que este excelente «leitor livre» no Horas Extraordinárias  tão sucinta e acertadamente expressa. A essas razões acrescentaria eu também o dever de deixar o personagem (ou a história) livre de encontrar o seu leitor.

Sobre soliplass

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2 respostas a Liberdades e desaconselhamentos

  1. Num ápice seremos desses velhos que se alimentam de memórias. Uma sociedade solidária, é-o em particular com as crianças e os velhos, porque neles estão as sementes do futuro e raízes da memória.

    Abraço.

  2. soliplass diz:

    que optimismo compadre nesse “num ápice seremos desses velhos”. Eu já sou…

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