“pelo rigor e interesse”

Estou certo que alguns dos meus antigos colegas de curso (FCSH, licenciatura de Ciência Política, finais dos anos 90) concordarão que aquilo era um purgatório. Bibliografias extensas, semestres intermináveis. Análise política (dois semestres com Vasco Rato), a cadeira de Direito Constitucional e a de Sistemas Parlamentares com um pobre juiz do Tribunal Constitucional (não recordo o nome mas pelo matagal que trazia por bigode ganhou a alcunha de «o farfalha») que chegava para dar as aulas tão extenuado de alíneas e parágrafos que não se lembrava já do que ia para dizer. Penava ele para terminar a frase (apoiando a testa na palma da mão e pedindo desculpa), penávamos nós de impotência não podendo ajudar o pobre homem. E assim era naqueles tempos bárbaros. Bibliotecas fracas, muita fotocópia, adivinhar o resto das frases. Valia, ali na FCSH, as mini-saias das colegas ao subir as escadarias da torre e o café barato. Que alcançar o conhecimento era verdadeiro calvário.

Os tempos mudaram. Felizmente. Um cristão, nestas últimas duas semanas, por  blogues, crónicas, comentários, entrevistas, tendo abertura de espírito, aprende o triplo, se não o quádruplo. O mundo evolui, pleno de maravilha, prolífero de surpresa. Para a esfera pública jorra agora conhecimento sólido, discurso luminoso, garganteio sublime. A politeia pôde, finalmente, tornar real uma utopia (um dos cinco postulados da democracia ideal) – o enlightened understanding.

Mestre da surpresa, outro Dahl (Roald Dahl) descreve no seu segundo volume biográfico (Going Solo, 1986) uma outra música surpreendente. Em tempos difíceis e numa situação conturbada. Tinha sido declarada a guerra, era preciso capturar os cidadãos alemães que abandonavam Dar es Salaam. Emboscados na selva, esperando a coluna de fugitivos alemães que procuravam a segurança da África portuguesa, na noite tépida da costa do Índico, Dahl maravilhado recorda e relata:

“The croaking of frogs is the night music of the East African coast. The actual croak is made only by the bullfrog and he does it by blowing out his dewlap and letting it go with a burp. This is his mating call and when the female hears it she hops smartly over to the side of her prospective mate. But when she arrives a curious thing happens and it is not quite what you are thinking. The bullfrog does not turn and greet the female. Far from it. He ignores her totally and continues to sit there singing his song to the stars while the female waits patiently beside him. She waits and she waits and she waits. The male sings and he sings and he sings, often for several hours, and what has actually happened is this. The bullfrog has fallen so much in love with the sound of his own voice that he has completely forgotten why he started croaking in the first place. We know that he started because he was feeling sexy. But now he has become mesmerized by the lovely music he is making so that for him nothing else exists, not even the panting female at his side. There comes a time, though, when she loses all patience and starts nudging him hard with a foreleg, and only then does the bullfrog come out of his trance and turn to embrace her. Ah well. The bullfrog, I told myself as I sat there in the dark forest, is not after all so very different from a lot of human males that I could think of.

Permito-me a liberdade de trazer à presença dos leitores este belíssimo texto porque me parece digno de homenagem o transe abnegado do sapo que fornece a música das noites da costa africana do Índico. A criatura altruísta que esquece o interesse próprio, o imediatismo e os prazeres da carne em prol do canto que embeleza a noite. E é esse coaxar desinteressado que Dahl imortalizou. Num mundo prestes a entrar em convulsão violenta, numa selva remota uma música, um canto, ilumina as trevas.

Vivemos, em Portugal, na selva diária, também tempos incertos e conturbados. Felizmente, há vozes, abnegadas, em transe de amor pela democracia, liberdade e civilização, que, à imagem do sapo africano, são o bálsamo do tempo presente.

O Âncoras (que já tinha elogiado algum do coaxar) associa-se assim ao Delito de Opinião nesta singela homenagem. Se por mais não fosse, e como bem e justamente escreve Luís Menezes Leitão que tomo a liberdade de citar, “pelo rigor e interesse dos textos que publica”.

Sobre soliplass

email: friluftogvind@gmail.com
Esta entrada foi publicada em Uncategorized com as etiquetas , , , . ligação permanente.

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s