Saberes e descompressores

Revi-o no passado Domingo das eleições. Coxo, velho, quase cego. Ainda e sempre ventrudo, o que mais contrasta com a estatura baixa, a sair a custo do Audi. Desce ainda da aldeia – uns casais esparsos – à sede de freguesia. Iria, imagino, sentar-se na mesa do canto do café, pedir o carioca, pegar no Correio da Manhã. Que caíu nas unhas das Finanças. E que se não põe o que tinha no nome do outro ficava sem nada. Mais de tiradas e escárnios, fala pouco. E com poucos.

 Ninguém lhe conheceu opiniões. Viveu bem com Salazar e com Abril. De facto vivia melhor depois de Abril. O amealhado como emigrante em França no tempo da outra senhora permitiu-lhe abrir negócio e prosperar depois de Abril. Foi um marco, na última metade de setenta, o primeiro Mercedes – da série w 123 – o 220 D. O Mercedes a gasóleo que parava de descompressor.

Nunca conheci o pobre homem de quem se riam nos jantares e patuscadas onde acabavam – depois de passar pelos tachos – as grinaldas de coelhos, perdizes e algumas lebres que no fim do dia de caçada penduravam com barbante à frente, ou em toda roda dos carros em dia de abundância ou sorte,  na volta do Alentejo. Sei que teria vindo dos campos do Mondego com alguma família (pelo menos a mulher e a cunhada) para a campanha de apanha do tomate algures na lezíria perto de Samora Correia. Imaginava-o eu, quando em adolescente acompanhava o meu pai que era colega de caça a um desses jantares ou patuscadas, caminhando com o «jarrican» vazio na mão direita pela beira da estrada à procura de gasóleo.

Naqueles tempos o velho, que é hoje coxo e quase cego, tinha sangue na guelra, olho vivo. Galava a torto e direito, inventava o que não lembrava ao diabo. O que ia pela beira da estrada ao gasóleo, tê-lo-ia conhecido pela primeira vez naquele Domingo, havia coisa de uma hora ou duas. Certamente tinha sido preparado pela mulher e pela cunhada durante a semana, ou quinzena. «Vem aí fulano, que anda interessado na minha irmã, traz o carro para irmos dar um passeio, parece mal irem os dois sozinhos,.. etc. e tal…». Deve ter-se escanhoado na bacia de zinco ao espelho, num barracão da malta, ou fora no terreiro, antes de vestido o fato adomingado. Talvez cumprimentado com um aperto de mão, tirado a boina. O outro vinha de Mercedes, coxeava quando saiu do carro. «Uma porrada dum raio neste joelho, médico, agulhas, pomadas…»; que tinha prometido vir, porque senão…

Foram os dois à frente, elas atrás, conversando pela lezíria fora. Em qualquer parte que havia um caniçal comprido, ao lado de uma vala, o motor do carro morreu lentamente, rolaram até parar. Deu à chave uma vez ou duas… sem sucesso. E desabafou «rais parta!!… que cabeça a minha… Era pra ter posto gazól e esqueci-me quando passei às bombas. Eu tenho ali um jarrican mas vocês têm que esperar aqui um bocado bom que eu com o joelho assim vou-me ver à rasca pra ir e voltar…». O outro ofereceu-se. «Ná!!!, qué lá isso, vou lá eu que posso andar bem.» E foi. Ainda não ia longe quando o do volante, saído do carro ligeiro como lebre, passados os caniços para o outro lado, enquanto a cunhada ficava no banco de trás do carro parado na berma, lhe trancava garrocha na mulher.

Andavam amantizados mas ali na campanha do tomate queixava-se a dama que o marido não a largava por um minuto. Foi então que o outro se lembrou de pedir a colaboração da cunhada – ainda solteira – que sabia também da marosca. Passar por pretendente dela. Era fácil, convidados para um passeio, simular a falta de gazól. Do outro lado do volante bastava puxar o descompressor lentamente que o motor do carro iria abaixo gradualmente.

Era quase fatal que, naquelas patuscadas anos mais tarde, lhe pedissem para contar a história. E as risadas desabavam à custa do que tinha ido ao gazól. Uma roda de gente convidada, por norma gente relativamente influente à pequena escala da província. Fulano do banco. O dos seguros, um dos famosos sub-chefes que caçava multas e passava indulgências a troco da nota dentro do livrete, o da repartição. Fauna ilustrada. Vinham atulhar a pança de caça e de vinho, rir até às lágrimas.

Frequentemente me foi dado observar os efeitos do conhecimento assimétrico. Foi fatal ao que foi ao gazól, deixando a mulher na companhia da cunhada, ir em histórias e não perceber nada de Mercedes e de descompressores. E era uma vantagem para aquela intelligentzia de província os cargos e as posições a que a educação dá acesso. Encher a mula a custo zero, propina, bebedeiras memoráveis, histórias divertidas.

Acompanho à distância esta polémica dos exames da quarta classe. Não sei se discordando ou concordando da sua abolição. Talvez fosse bom haver exames semestrais, mensais, semanais, a horas matutinas e vespertinas. Comprimir para descomprimir depois. Aferir e seleccionar o melhor e mais apto, quem poderá no futuro aceder ao posto de director do Correio da Manhã. Distorcer as estatísticas após o doutoramento. Dar pareceres de optimização fiscal. Criar alçapões na lei. Rir. Patuscar. Saber onde fica o descompressor. Não ir ao gazól.

Creio que por esse processo de selecção chegaremos ao ser humano perfeito. O ponto último da evolução. Só os aparelhos digestivo e reprodutor. Em suma, aquele velho do Domingo das eleições abrindo o Correio da Manhã, a voz e a pose grave antes de baixar os olhos; «tira-me aí um carioca.»

Sobre soliplass

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