A morte das bibliotecas privadas

O título acima é também o de um post de Maria Rosário Pedreira no Horas ExtraordináriasAli se discorre sobre uma morte das bibliotecas:

“Há quarenta anos, quem gostava de ler acumulava livros nas estantes, muitos livros a que voltava vezes sem conta – e as gerações actuais não sabem o que fazer com as bibliotecas de seus pais e avós quando estes morrem. Não há espaço para elas nos novos apartamentos, quase sempre mais pequenos; mas, segundo o articulista, mesmo que houvesse, elas não deixariam de ser, em muitos casos, bibliotecas mortas, porque, para estar viva, uma biblioteca tem de ser alimentada regularmente com livros novos, e esta regularidade nem sempre acontece com os leitores mais jovens.”

Mas haverá forma de evitar a morte de uma biblioteca privada mesmo que aqueles que herdam uma a preservem e acrescentem? Aquilo que pode acontecer no caso de uma preservação integral de um conjunto de livros é a salvaguarda de uma sub-biblioteca a que falta o essencial: o descodificador, aquele que a coleccionou. Só ele verdadeiramente sabe a razão de cada livro, a sua história, a razão (ou o acaso) que levaram a que dia a dia um novo volume se acrescente ao conjunto. Quando o proprietário desaparece, desaparece também essa coerência, essa mistura de acasos e de intenções que formaram aquele acervo em particular. Em certo sentido desaparece também grande parte do conteúdo da biblioteca.

Ocorre-me isto porque no post anterior ao «A morte das bibliotecas privadas» há outro intitulado «ajudar»; aí se diz que «por cá os escritores ganham mal». Creio que a autora se refere ao facto de as tiragens das editoras serem reduzidas, e, consequentemente, os direitos de autor que delas resultam serem parcos. A respeito disto, de tiragens reduzidas, a minha biblioteca privada fornece um pequeno àparte, uma curiosidade ou complemento, que apenas eu sei, com economia de tempo, procurar e revisitar.

Em 1935, Vilhelm Moberg (um dos escritores-proletários suecos) publica  Sänkt sedebetyg, o primeiro volume de uma triologia a que posteriormente incluiu Sömnlös e Giv oss jorden. O livro tem a curiosidade de ter sido o primeiro sucesso editorial de Moberg. Mas também a curiosidade de ter sido um sucesso editorial demasiado grande para o seu gosto e para o gosto da época. Uma tiragem anormal para a Suécia de então: 12 000 exemplares. Moberg virá a confessar em 1965 num dos capítulos de Berättelser ur min levnad (cap.12 – Relatos do jornalista» que naquele tempo (anos trinta) um jovem autor andava por ruas secundárias carregado de vergonha, de cara baixa evitando os conhecidos, se um romance seu atingisse uma segunda edição. Bestseller (é o termo usado por Moberg) era sinónimo de baixa qualidade literária. E que no seu caso (conta nessa divertida passagem do livro de 65), desculpava-se do número anormalmente grande da tiragem (os tais 12 000 exemplares) com a história (inventada por si)  de que se tinha ficado a dever a uma falha técnica da maquinaria do impressor da editora Albert Bonniers. As impressoras teriam avariado e continuado a imprimir todas aquelas cópias sem que  ninguém as conseguisse parar. Perante a inevitabilidade encolhia os ombros conformado: agora, os 12 000 volumes impressos tinham que ser vendidos para minorar o prejuízo…

Voltei ontem à divertida passagem de Moberg que a biblioteca me oferece ao estender da mão. Mas dificilmente oferecerá a outro. Dificilmente outro terá a curiosidade de revisitar o «mar de feno» de que falei aqui, a vastidão da terra virgem medida por dias em que um homem podia gadanhar uma faixa de feno sem voltar para trás. Nenhum dos meus próximos conseguirá (ou terá interesse em) retirar da minha biblioteca aquilo que ela oferece, conseguirá ouvir os seus segredos. Quanto mais não seja porque não dominam os idiomas em que leio normalmente. Este conjunto de livros não será o mesmo sem mim. Não apenas o conjunto. Cada um deles.

Há um que tem uma história invulgar. Não era a primeira vez que a admiração extrema pela obra de um autor me levava a fazer figura de otário. Nem seria a última.

Do outro lado do mundo falei um dia a um livreiro de um autor português que muito admiro. E de um romance em particular. Mostrou-se interessado. Na passagem seguinte por Portugal comprei o romance. Levei-o até à Escandinávia, daí aos antípodas em mais três voos. E entreguei-lho em mão. O pior é que o livreiro era comerciante de livros e numa passagem pela sua livraria, uns meses depois, lá estava o mesmo romance à venda. Peguei nele, meio despeitado, dirigi-me à caixa. A empregada nunca conseguiu ler o código de barras (pudera!) pelo que por fim desistiu e inventou um preço: 50 Reais. Trouxe o livro, deixei-lhe por aí no blog uma foto numa mesa de um aeroporto, li-o de novo na viagem de volta à Europa. Um romance fabuloso de um dos grandes escritores portugueses. Faz parte da biblioteca. Para terceiros é um exemplar do romance no meio dos outros do autor de quem tenho toda a obra publicada entre nós. Para mim, passado aquele primeiro momento de despeito, é agora uma fonte de orgulho. Aquele exemplar do romance, aquele livro em particular, é tão bom que o li três vezes e comprei duas.

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