Manias pequenas

Se me pedissem uma avaliação deste blog, talvez respondesse que é sítio, mais que de publicar isto ou aquilo,  de onde parto (através dos links) a ler os outros. Teria até uma imagem perfeita que lhe poderia servir de metáfora de tijolo e massa. Uma casa desconjuntada que vi num dos bairros de Curitiba ali pertinho da sede da Polícia Federal. Perdi a foto que tirei depois de a olhar demoradamente. Fascinado com aquilo. Na casa tosca e estreita, construída às três pancadas, abria uma janela relativamente grande (se comparada com o conjunto) dominando o pequeno vale defronte. A casa estreita na rua engenheiro Paulo Gabriel Passo Brandão, seria o retrato do âncoras comparando blogs a edifícios. É blog mal amanhado de onde aprecio a grandeza do mundo.

Cogitava hoje que trago isto abandonado. Que deveria escolher tema ou assunto. Mas os assuntos que me prendem a atenção no dia a dia (por desventura só minha) pouco interessarão ao leitor. Ocupam-me coisas triviais, comezinhas. Vinha estrada fora a pensar nisso. Numa estrada normal, uma nacional. Que por acaso (ou talvez não) corre mais ou menos paralela a duas auto-estradas. É sinuosa, cheia de limitadores de velocidade, atravessa povoações quase pegadas umas nas outras. É frequentada por camiões. Quando se calha atrás de um deles carregados, ou se arrisca uma ultrapassagem perigosa, ou se aguenta. Tive tempo de deixar correr o pensamento, sobre temas que brilhariam num blog. A exegese de um esgar de Marcelo; a estabilidade das instituições; as suítes inglesas de Bach; um verso da Eneida que amaldiçoa quem vende as leis por dinheiro; um soneto de Théophile Gautier cujo primeiro verso é: La caravane humaine au Sahara du monde; a geringonça e o ressabiamento esquerdalho; etc., etc.,…

E por manias, por mais que corresse o pensamento, o tema era sempre o mesmo. Um tema que não preocupa ninguém. Preocupará, quando muito, o desgraçado do camião à minha frente, um maluco ou outro como eu. Os limitadores de velocidade plantados em cada aldeola ou casal que seja atravessado por estrada acendem o sinal vermelho para que passem os peões. Regularmente. Que não haja peões (a meio do dia e muito menos às quatro da manhã num lugarejo onde moram trinta almas) para atravessar é irrelevante. E o camião a puxar por trinta toneladas ronca a primeira a segunda e a terceira, ladeira acima à frente de uma nuvem de fumo preto. Quantos milhões de litros de combustível se gastam neste país no arranque de veículos, ligeiros ou pesados, que pararam para deixar passar peões inexistentes àquela hora e naquele sítio? Coisa pequena, e o país, o país só concebe e brilha, e avança e progride, se reflectir nos grandes temas. As implicações da geo-estratégia na curva da especulação com o preço do crude, por exemplo.

Sobre soliplass

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Uma resposta a Manias pequenas

  1. Fernando Lopes diz:

    Meu caro, os teus pequenos nada são sempre enormes em interesse. Não consigo ler-te sem uma pontinha de inveja.

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