ajudando as vítimas

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De turno na noite da véspera de Natal, num intervalo do serviço, deparo com o presente pendurado na porta da cabine. Um saquinho de serrapilheira em forma de peúga com caramelos, chocolates, confeites de marsipan… Das provisões de bordo. E lá fui roendo aquilo Natal fora. Da parte do empregador, de presentes, foi só. Ainda assim a parcimónia para com os empregados gerou aplauso. Da minha parte e da parte dos que ouvi pronunciarem-se sobre o assunto.

Nos últimos anos temos recebido pelo Natal peças (por sinal bem bonitas) de uma famosa cristaleira dinamarquesa. Este ano, os directores decidiram, e bem, que a verba afectada aos presentes seria oferecida a uma organização de apoio a vítimas do cancro. Parece-me melhor que o dinheiro seja aplicado dessa forma; de cristais já chega de imaginar onde arranjar lá por casa pouso para tanto traineco.

Por mim nunca me incomodaram muito os natais a bordo. Ou a parcimónia de comeres ou haveres. Mas talvez isso se deva à minha história pessoal de natais passados em ambientes católicos e latinos que me faz torcer o nariz a cada vez que tenho que aguentar noite natalícia debaixo de telhado de que não seja proprietário.

Onde os valores da família são supremos, não é conveniente ou civil pôr os pontos nos is àqueles a quem – por serem familiares – não podemos evitar ouvir as larachas à ceia, ou dizer o óbvio e ululante quando nos calha em família um bêbado, um crápula, ou um guloso. Isto do imperativo da paz na noite de paz tem as suas inconveniências. E porque os valores da sociedade católica contaminam também as famílias, somos todos irmãos em Cristo mas só até ao dia em que um rapaz que ganhe o salário mínimo se torne noivo de uma filha nossa. Que isto há limites para tudo…

Pensando nisso, na atitude altruísta do empregador neste passado Natal, tenho pena que estes fundos não cheguem a uma espécie particular de vítimas das ceias de consoada. Aqueles que, ganhando o salário mínimo (ou pouco mais), sentados à mesa, ou nos salamaleques que precedem o jantar, são vítimas do olhar do sogro. Se bem me lembro, poucas vezes se encontram – debaixo da roda do sol e nesse mundo de Deus – radiações mais cancerígenas.

Sobre soliplass

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3 respostas a ajudando as vítimas

  1. Tão, familiar que isto me soa: “E porque os valores da sociedade católica contaminam também as famílias, somos todos irmãos em Cristo mas só até ao dia em que um rapaz que ganhe o salário mínimo se torne noivo de uma filha nossa. Que isto há limites para tudo…”.

    A minha porcelana, jovem universitária de 20 anos, namorando um serralheiro de 30 com o 12º ano (é que nem lhes interessa conhecê-lo eà sua história pessoal, o perfil está feito), oh escândalo!

    ___
    Numa família oriunda do trabalho na terra isto tem tanto, mas tanto que se lhe diga, que não preciso de acrescentar mais nada, como compreenderás.

  2. (tem, tenho, temos aliados, contudo, e são precisamente os mais academicamente relevantes 🙂 a mandar às urtigas uma carga demasiado em modo canga, até o pai, que é um conservador do caraças)

  3. soliplass diz:

    Que dizer? senão que é tristemente típico?

    Com o tempo irá mudando, talvez. Mas leva tempo. Tempo demais, tempo que não temos.

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