Em louvor da direita e dos exames

Sendo certo e sabido que em Portugal se briga por tudo e por nada, no que refere à defesa dos exames, a direita não deve ser atacada; antes defendida. Merece (a meu ver), o aplauso. Por duas ordens principais de razões:

Numa perspectiva histórica, uma direita que tradicionalmente tem convido sem grande desconforto com o analfabetismo dos caseiros lá da quinta, com os best-sellers de Moita Flores ou Helena de Sacadura Cabral à venda em toda e qualquer bomba de gasolina, com a existência e funcionamento de Modernas, Lusíadas, Lusófonas e Independentes (quando lá não fez biscate a troco de propina ou trabalhou a tempo inteiro) ao dar mostras agora de defender o rigor na educação e o conhecimento, faz prova inequívoca de evolução. Merece, ignorando clivagens – ainda que Rokkan e o Lipset se voltem na tumba-, o nosso aplauso e apoio nesta questão particular. É uma forma de justiça rendida e de encorajamento.

Numa perspectiva ou enfoque que considere apenas o momento actual, as contingências da realidade no mundo contemporâneo – essa “realidade”tão cara à direita – e os concomitantes desafios da modernidade e da evolução tecnológica, novamente tem razão no pugnar pelos exames.

Com efeito, no mundo actual, com a sua avalanche diária de “sound bites”, de confusão de fontes do saber e de informação, é cada vez mais necessário aos nossos jovens um conhecimento rigoroso, dotado de uma genealogia sem ambiguidades, alicerçado numa autoridade de factos comprovados. É importante que o jovem saiba, por exemplo, que a frase «Fizera-se naquele escritório uma atmosfera densa de escarradores de água suja e de decisões irrevogáveis» é parte integrante de um clássico da literatura nacional da autoria de Vitorino Nemésio. Não um conjunto de ironias sobre a história do último Governo constitucional e sobre a cara de João Miguel Tavares. Do cap. XIV, de Mau Tempo no Canal. A frase tem tempo e lugar, um contexto. Que o escritório é o de Januário Garcia, que as decisões são as que se prendem com o intentar do arresto das canoas baleiras na posse da família rival naquela ilha açoriana no início do séc XX. Que a frase é indivisa, datada, referente a uma topografia bem determinada. É importante que se avalie, preferencialmente através de exames cuja eficácia está comprovada entre nós, se o saber está alicerçado ou se voga ao sabor da corrente, flutuando na espuma dos dias. A juventude de uma nação não pode viver, permanentemente, imersa numa anedota. Examine-se portanto. Enquanto é tempo.

Mais tarde pode fazer como lhe apetecer; viver sem prestar contas ou olhar a expedientes. Nisso, a direita, tem tanto de severa como de generosa.

 

Sobre soliplass

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