You don’t play with all the cards

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Slekters gang. O romance de Jan Kjærstad acabado de sair. O título, a ser traduzido para português, daria qualquer coisa como «O curso das gerações».

Depois de todos estes anos, tornei-me conhecido de alguns livreiros e alfarrabistas de Oslo, nalguns casos, amigo. Com o passar tempo tem-se tornado cada vez mais frequente ou o desconto substancial na compra de livros, ou a oferta. Foi o caso deste, um exemplar de leitura que não se destina à comercialização, recebido na quarta-feira passada. Olhava para ele ao iniciar a leitura no café do costume, os dizeres «exemplar de leitura», do carimbo com que vem marcado. Começo a aproximar-me perigosamente  do que tanto estranhei e critiquei nos meus colegas portugueses. Não gastarem um tostão num livro do país que os acolhe.

Não são dois dias. São vinte e três anos e meio. Nestes navios que aportam em Oslo, colegas portugueses devo ter conhecido à volta de duzentos. Nunca encontrei nenhum em qualquer livraria ou alfarrabista de Oslo. Estranho desencontro, ou prodigiosa auto-suficiência de conhecimento da parte deles. Pensando bem, nunca encontrei, ou notei, ou ouvi um falar de um português, numa das livrarias da cidade. Excepção, uma simpática moçoila madeirense que encontro ali ao lado, à esquerda, na Casa da Literatura, onde há uma livraria. Lá trabalha no café-restaurante. Que me lembre, nestas duas décadas e picos, foi caso único.

Não é que a atitude dos meus compatriotas seja de todo desprovida de bom-senso. Desequilibram menos as finanças, não deixando por aí a fazenda a troco de papéis pintados. Não os assalta por aí além a inquietação existencial dos porquês da história e da cultura do povo de acolhimento. Nem se acham tão vinculados por leis e costumes que às vezes chateiam e apetece contornar. Provavelmente a sua atitude é até, muito mais que a minha, socialmente útil. Escolhendo a «terra de ninguém» dos chavões com mau sotaque em línguas francas acabam por gerar casos de win-win que por vezes me escapam. 

Um caso paradigmático aconteceu nos anos noventa, ao final da rua da foto em frente, a Parkvein. Um grupo, daqueles grupos grasníferos onde por norma um marialva de ombros estreitinhos e sem cara pr’a levar um estalo assumia a liderança natural, preparava-se para abandonar o hotel rumo ao navio. O líder, empertigado no passeio ralhava com o taxista. Desconhecia ainda e sempre aquele “å være til nytte”. «Ser útil», «ser prestável», um dos traços da mentalidade das gerações norueguesas nascidas ou no tempo da, ou após a guerra, segundo Marianne Gullestad, a famosa antropóloga social. Ser prestável – em tudo diferente de ser servil. Pôde assim, dirigir-se ao taxista como se um visconde de Arrouquelas a um serviçal que lhe tivesse acabado de escaqueirar um jarrão da Índia.

Dizia-lhe o líder natural em pose de muita autoridade, admoestando-o em voz alta e rodando o indicador na têmpora:

   – You don’t play with all de cards! 

O outro, não percebendo:

   – What?

    – Yes!!! You don’t play wiht all the cards!

E foi melhor assim. Era um dos taxistas antigos, prestáveis e joviais, do tempo em que a cáfila de paquistaneses malcriados e manhosos, quantas vezes declarados inimigos do sabão, ainda não tinha tomado conta dos táxis. Pôde viver a velhice sem a sombra daquele diagnóstico severo que não conseguiu entender.

Pode ser que hoje ainda viva, dá gosto imaginá-lo, em casa vermelha  à beira de fjord, ou em floresta de coníferas,  despreocupado e tranquilo, sem ter tomado nunca consciência de que não jogava com o baralho todo

Sobre soliplass

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5 respostas a You don’t play with all the cards

  1. No fundo você é um tipo com sorte. Eu assisto a coisas dessas todos os dias.

  2. Fernando Lopes diz:

    A variação nacional que descreves do «facestick of race», é, infelizmente, internacional. É ver os morcões internacionais que pululam neste meu Porto a dizer mal dos nacionais julgando que não entendemos francês, inglês ou alemão.

  3. Portugueses que não lêem? Ora que estranho. Conheço eu, meu caro Soliplass, bibliotecária de biblioteca escolar que há tempos me dizia, e sem se envergonhar, que há mais de cinco anos que não lia um livro porque não tinha tempo.

  4. soliplass diz:

    Lembro-me de me ter contado essa. Bom, até pode não ter tempo… Mas vocação de bibliotecária deve ter aos montes. Foi cair no sítio certo…

  5. soliplass diz:

    Pois, isto da parvoíce não respeita fronteiras. Nem há povo que tenha dela a patente.

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