Um presidente do povo

 

Vá-se lá saber porque perdurou a mistura de luz e sombra, como num vídeo ou filme. De voz e de silêncios. A mistura do alto e grave comunicado – ou discurso – que saía da televisão com o volume baixo, que mais se adivinhava pelos movimentos do presidente que pelo som da sua voz, com a fala simples, e tão segura, do velho. Foi ainda no primeiro mandato. Numa das aldeias do “bairro” de Santarém.

Estacionada a moto lá fora entrou no café mal iluminado, pisando a faixa de chão batida pela luz do sol. Era manhã, ainda. A um canto, o velho, absorto. Junto à salamandra que deixava escapar o tremeluzir do fogo. Aos pés um cão de pelo aramado, pardo, um pouco mais claro que as calças escuras, cinzentas, do dono. As mãos passadas uma sobre a outra na extremidade do pau. Luzidio, curto, nodoso. Marmelo. As botas de elástico ensebadas, vinco nas calças. Colete, samarra nos ombros, de gola de carneiro, pêlo escuro. Um homem ou limpo por natureza ou que tinha quem dele cuidasse. Barbeado.

Deu os bons dias, dirigiu-se ao balcão. Ninguém. Mas ao fundo do balcão, uma porta aberta que dava para um quintal.

– Ela já vem. – Disse o velho, não gordo, nem magro. Sentado, o pau a meio das pernas abertas, dava a ideia de ter sido um homem sólido, atarracado.

O cão levantou-se, passou devagar quase que escondendo-se, olhando baixo para as pernas ou pés do estranho, parou quase ao atingir a porta, já dentro da faixa de luz. Quatro riscos de sombra, uma mancha de forma indefinida por sombra do tronco. Como que a sombra de uma girafa sem pescoço. Espirrou. E um pó de serradura moveu-se do chão, tomou luz, abateu de novo. Ainda há quem varra com serradura à noite, ao fechar – pensei. O velho falou-lhe, calmo:

– Anda cá farrusco. O home nã t’faz mal! Não! Ele vem na mota c’mà da polícia ma nã t’leva preso. Anda cá pr’ó pé do lume.

Pausou um momento, a ver se o cão vinha. Não. Ficou no sol, indeciso, até que olhou por fim a rua.

– Foi sempre assim desde pr’á í veio de p’canino. Sempre medroso, sempre a mod’s que d’sconfiado. Mas a gente nunc’ó escardiô nin lhe bateu, nunca ninguém lhe fez mal.

Calou-se um pouco.

– D’um destes é qu’a gente pode mêmo d’zêr qu’é desconfiado. Pois! (fez menção de rir) Ele há pr’á’í alguns c’os donos dão-lhe c’a cachporra a tort’e a direito sin jeit’ nenhum…, coitados… Esses a gente nin pod’ bem d’zer qu’eles qu’sã d’sconfiados. Esses sabim-no à certa. Atão nã éi?

Riu, daquela observação de que alguns cães o sabem à certa. Que aquele só desconfiava… A senhora (filha do velho?) veio e tirou o café. E – sem que se lembre já o que ele dizia, ou que comunicação era – de repente o presidente aparecia, e falava no ecrã da televisão. Deve ter rido irónico, ou sorrido, chávena na mão, ouvindo com o mínimo de som que saía do aparelho, fitando o ecrã, já esquecido do velho e do cão que continuava à porta.

De repente ouviu a pergunta do velho:

– Voss’mecê tá s’a rir, acha-lhe graça? – Estranhou-a, proferida num tom neutro, nem agressivo nem curioso.

– Muito pouca amigo,… muito pouca – respondeu. O homem, com voz calma, clara mas como que em desabafo, como que se contando um caso antigo:

– E eu nunca lh’achê nenhuma. Há prá’í gente que nã vê outro sol nem outra lua. E s’ele valer tanto c’mo eles tamêm vale pôco qu’as mais das vezes é gente fraca… Mas ê cá nunca incarê c’o ele nin nunca votei nele. Ele já lá tá há uns pôcos d’anos… Pois olhe que se toda a gente diz qu’aquilo é ma’jdoira boa, ele nã tem ingordado muito. Mas nin há-d’ ser por lhe faltar a r’ção e olh’qu’ ele parece a ter bons dentes…

Calou-se um pouco, pensativo baixando o queijo nas mãos sobre o pau. Os olhos no chão, como que se pensasse…

– O home nunca me fez mal nh’um, nin nunc’ò vi. Só daí da t’lvisão. Mas parece ele que tá a olhar prá gente e nã tá ó mesmo tempo, quando se tá a rir parece c’o ela fisgada…Sabe o qu’é qu’ele m’alembra?… Um b’zarreco assim c’uns veios amarelicos qu’um v’zinho meu pr’á í trouxe…, coisa ordinária, sempre muito infoladeco… Nunca pr’stou pra nada, nin nunca pôs nin carne nim peso nenhum… Ele nã falhava que fosse a modos qu’arraçado de gado brabo e martlengo. Nin sei onde é qu’ele foi desincantar aquela impada… bom, negócios, ó trocas!… O que se sabe é qu’o bicho vei prá í, e s’ele tinha uma pastage boa, ali ó pé da fonte…, voss’mecê já lá passa se voltar pra baixo… Pois olhe qu’aquele alma do diabo nunca ingordou. Mas voss’mecê cuida? Parecia ele qu’nã podia c’uma gata p’o rabo, forun precisos quatro homes só pró carregar, cumas cordas laçadas ós cornos cada um a puxar pra um lado, e assim é qu’o carregaram pra cima dum reboque. Dava pulo de metro, salto que nin uma corça! E olhe que s’ele nã tinha carne cornos tinha ele! Esganipava tudo quanto via e nã via à cornada. Ê até nin gostava de lá passar ó pé dele, qu’até parecia aquela alma dum ladrão que tava sempre a varar a gente só c’os olhos. Ele nin bem corria cá prós arames! Mas dês’ c’a gente aparecia cá ó fundo da estrada até cá à curva cá in cima, nunca tirava os olhos d’um home. Ó m’lher, ó fosse quim fosse… Até a gente cuidava que lhe d’via d’nhêro, ó que lhe tinha matado o pai… E assim tá aquele, parece ele que tá sempre a qu’rer marrar na gente…

Calou-se um pouco mais. Vendo o da moto calado, sem saber o que responder:

– Voss’mecê nã lhe pareça mal isto qu’ê lhe tô a d’zer.

– Não, quem me dera ouvir falar mais assim. – baixou os olhos, olhou a ponta do pau no chão, continuou, sempre com a voz calma, sem excitações, como se, novamente, falasse um caso antigo:

Ná! Nunca  fui home de brigas, voss’mecê se perguntar por í tod’ à gente lho diz… Mas tamém fui de deixar os outros tocàrim-me cá c’as mãos na cara. Bom,… a nã ser o barbêro… mas havia d’lh’eu mandar fazer o serviço!… Quando aí havia barbêro… qu’isto por qu’í tudo acaba. Mas olhe que se fosse pra ir brigar cum home daqueles havia de vêr se nã me esquecia da navalha in casa, ou alg’ma coisa cum qu’lhe fizesse bem. Pode ser que teja inganado mas aquilo há-de ser velhaco c’m judas e ruim c’m carne de cão.

Já o cão se aproximava, talvez sossegado de o ouvir falar.

– Carne de cão ma nã é c’m’à deste. Qu’este é bom. Olhe, é a nhê companhia… Viuvei, prá’qui tou…

Bateu com a mão na perna da calça, duas vezes ou três:

– Anda cá farrusco, deita-te aqui pró pé do lume, anda home! Qu’inda arranjas prá’í uma pulmoêra, os dias vão frios. Pra gastar na botica bem bonda eu…

Despediu-se o intruso, disse-lhe adeus o velho, até outro dia. Já não pouca neblina havia no vale, veio na moto até Santarém a pensar naquilo. Encantado. Muitas vezes, já depois, ri ou sorri a pensar no retrato do presidente que o velho ali deixou dito, sem exaltação ou animosidade, como se falasse de outra coisa. Tem pena de não ter gravado a conversa. Não pode jurar que foram estas as palavras exactas, o ritmo.

Mas juraria que nunca ouviu, falado com voz de gente, outro melhor.

Sobre soliplass

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