A voz do nazismo

 

Telefono às seis da tarde,

– olhe queria um táxi para as quatro e meia da manhã à rua…

– telefone amanhã um bocadinho antes…

– mas já tenho telefonado e ninguém atende. Tem a certeza que há táxi a essa hora?

– há. Tá sempre gente na praça.

Respondo-lhe no outro dia, antes das quatro e meia, depois de ter chamado três vezes sem resposta:

– há sempre táxis na praça mas é a puta que te pariu e mais o corno que t’amassou as orelhas!

Largo a fugir, a mala de rodas a fazer uma zoada de trinta dianhos estrada abaixo rumo à estação. Foda-se, perco o comboio, se calhar o vôo. Já suado. Caralhos que fodam esta cidade e mais o serviço de táxis…

Diz a voz:

-tás parvo ou quê? Aqui há uns anos, na cama do hospital com a espinha partida, davas tudo quanto tinhas e não tinhas pra te veres a fugir por uma estrada fora. Comboios? Atrás deste vem outro! E aviões, se não chegares ao trabalho hoje, chegas lá amanhã. Já alguma vez o mundo parou por falta de gente?

A voz é ríspida. Há coisa de um mês, na livraria do aeroporto, dois novos volumes de Knausgård. Sobre o Outono. Sobre o Inverno. Dedicados à filha, textos e imagens belíssimas. Edições pouco menos que de luxo. Trezentas e cinquenta coroas cada. Pensei, caraças, o dinheiro é sempre curto, bom jeito dava um ordenado maior. E a voz:

Tás parvo ou quê? Há vinte anos atrás davas uma fortuna para saberes ler nessa língua. Agora não sabes? Andas com essa fortuna no bolso, mas claro, como não te pesa, já te achas pobre. Não acabaste de despachar uma mala com vinte quilos de livros? E os lá de casa, ainda a macacoa não te leve? Vais ter tempo de ler aquilo tudo? Ganha juízo pá!

No banco do avião, o colega:

– ouve lá pá, há quantos anos não metes baixa?

– sei, lá, há mais de dez, prá í…

– és mesmo parvo pá. Depois fazes um extra a seguir.

Tem razão, o colega. Mete-se baixa, ganha-se o salário na mesma da segurança social. E depois fazem-se duas vezes dois períodos de duas semanas que são pagos como extra. São 14 salários trabalhando metade dos dias do ano. Quem venha trabalhar sempre e nunca falta só ganha 12. Trabalhando à mesma a metade dos dias do ano. Tem razão.

E a merda da voz de novo:

– mas tu não tens vergonha? Então, num país que nem é o teu, os tipos que fizeram a segurança social e o welfare state depois da guerra, comeram o pão que o diabo amassou, quando não roíam só as unhas por o diabo não querer nada com padarias, penaram nos campos de concentração e na resistência enquanto ela durou. Sofreram tortura e frio, estilhaços, tiros, famílias desfeitas… e tu não te aguentas? Tens direitos é? E o dinheirinho é pra quê, confessa lá? Uns ray ban novos, e um cachimbo não? Pra te ires sentar na esplanada da praia de carcavelos a ler a Ideias&Negócios que pode passar a Lili Caneças a arejar o poodle e ficar impressionada contigo? Ai que cavalheiro distinto!

Aqui há uns anos caiu uma travessa de porcelana de uma das prateleiras de cima. Grossa, pesada. Em vez de me afastar tentei apanhá-la. Quando já tinha batido no canto da bancada e já vinha aberta em pedaços. Foi como meter a mão a uma serra de um talho. Um repuxo de sangue, panos enrolados. Telefone. A marcar os números com a mão esquerda. Médico. Visto, lavado, uma compressa. Tinha que ser cosido, felizmente não apanhou tendão, oito ou nove pontos. Não tenho cá anestesia. Vamos chamar o helicóptero.

A puta da voz:

– mas tu perdeste o juízo? Um helicóptero para evitar duas dúzias de picadas? Um correr de uma linhazita, o fazer os nós? E então, navio pára e navio arranca (isto gasta três e meio de gazól aos cem né?), hélices laterais para compensar vento ou correntes, os rapazes do barco rápido levantados da cama e a postos, mais os da brigada de fogo com fatos e as garrafas do ar e as mangueiras e os extintores, a equipa do helicóptero, que vem de Gotemburgo aqui, e daqui ao hospital, e do hospital novamente à base em Gotemburgo (a gastar três e meio aos cem, novamente), depois do tratamento mais o teu transporte de volta a Oslo. Isso fica barato. Menos que uma caldeirada de enguias nos Foros de Salvaterra. Já com o café e bagaço incluído. Anda, não faças de coninhas. Diz lá ao médico para coser assim. Não quer? Diz-lhe que se fosse ele ou tu, cortando-se um gajo aí numa montanha ou floresta a três horas a pé da povoação, tendo agulha e linha e desinfectante, cose-se a si mesmo e fica todo contente de ter com quê. O gajo aceita, sabe que é verdade, e as montanhas e as florestas são a religião deles. É como rezar um pai-nosso e uma salvé-rainha.

No outro dia, entrando de braço ao peito, os colegas:

– o qué que ta’conteceu pá?

Diz o outro:

-atão não sabes? Ia matando a velha da messe esta noite este caralho. Não havia aí mais ninguém àquela hora, o médico veio buscá-la para lhe ir segurar a mão enquanto ele o cozia a sangue frio. Mas a velha foi-se abaixo das canetas a ver aquilo, ainda teve o médico que tar a acudir à mulher e deixar a costura a meio. No fim teve que ser ele a segurar a mão enquanto o homem o cosia. E tudo porque não quis que ele mandasse vir o helicóptero. Foda-se. Que isto prós outros até é um gajo porreiro. Pra ele mesmo é que é um nazi do caralho!

É o problema da voz. Só chateia, só embrulha. Faz passar figuras de parvo. E por causa dela ainda levo rodas de nazi.

Sobre soliplass

email: friluftogvind@gmail.com
Esta entrada foi publicada em Uncategorized com as etiquetas , . ligação permanente.

4 respostas a A voz do nazismo

  1. Belo conjunto de posts aqui vai.

  2. soliplass diz:

    Escuna atracada, dia santo na loja.

  3. Conheço uma voz assim. Por vezes, raras, penso que é uma ordinária que só me lixa a vida. Mas é uma das coisas mais preciosa que temos.

  4. soliplass diz:

    é como esta então. Estraga-fodas e desmancha-prazeres. E, feitas as contas, não fica barata.

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s