Milagres

Passados estes anos via-a, uma ruína, acompanhada das filhas, mulheres gradas já. No centro comercial de uma cidade distante. Houve um aceno, mais que um cumprimento. Há anos ouvi dela: «abalou-lhe». Ao marido. Não me lembro de ter ouvido se sozinha ou acompanhada.

E do marido, lembrei-me da conversa. Do que desabafou uma vez um tio quando lhe perguntei por ele.

– Olha rapaz, nã sei…

Que já lhe tinha dito al’gma coisa. Mas nã lhe dizia mais por medo que lhe parecesse mal. Já é um home criado; a vida é dele…

Mas que ainda nã há dois dias o tinha visto, «tá perdido c’o vinho». «Ora s’eram cinco e um quarto. Despega às cinco. Pois vinha tã esganado cum sede que nin cumprimentou ninguém, nin viu quin tava quin nã tava, direito ó balcão. Pede logo um pénálte e de duas trombadas, sin pensar nada no assunto, goela abaixo… Pois ‘inda nin bem tinha assentado o cu do copo no balcão, já tava a pedir que lhe medissem outro! Ora, dois c’litros e meio mais dois c’litros e meio, faz logo mei’litro. E é a gente a falar dali, quando ainda ele nã lhe tinha perdido a conta… Ópois claro…»

 E ia contando. Às tantas remata:

– Tá tã bêbado, tã bêbado, tã bêbado, aquele corno! Corno, salve seja!… Pode muito bem ser qu’o nã seja e até que nin nunca o venha a ser…qu’isto, já se tem visto muita coisa ós cimos da terra, e às vezes ele há milagres…

Sobre soliplass

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