Natureza morta com Selbuvotter e Rubi Vermelho

 

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Café do costume. Dois ícones desta terra nórdica. Um romance de Agnar Mykle que vou relendo, o «Cântico do Rubi Vermelho»; e as típicas luvas de polegar e resto da mão: as tradicionais Selbuvotter. Há luvas mais práticas, que protegem melhor, mas estas são as preferidas. Lembram neve, silêncio, um modo macio e gentil de olhar na gente que comigo se cruza. Tiveram como origem a industriosidade e invenção de uma jovem rapariga em 1852. Marit, de Selbu. Com tempo livre, usando fio de lã de ovelha negra e de ovelha branca, criou estes padrões e modo de tricotar que o país adoptou. Estas malhas tornaram-se típicas da pequena localidade, uma fonte importante de rendimento (até usadas como moeda de troca), tendo mais tarde, a figura mais típica (a rosa de oito pétalas), sido adoptada como símbolo do município.

O «Cântico do Rubi Vermelho» – Sangen om den røde rubin (1956) – causou escândalo na época e grangeou a Mykle o título de pornógrafo do reino. Romance auto-biográfico com descrições explícitas de sexo, valeu também ao autor, e ao editor, um processo judicial. O reino, puritano, não admitia as poucas-vergonhas por ali estendidas com abundância e detalhe. No sururu entrou também o parlamento, o colégio de bispos, o diabo a sete. E se os dois (o escritor e o director da Gyldendal, Grieg) escaparam ao xilindró, o livro foi proibido e apreendido. Só um ano ou dois mais tarde, em instância superior, a sentença foi anulada. Mas o escândalo tinha sido tal que o Rubi ficaria para sempre famoso na história das letras norueguesas, com edição atrás de edição, tradução atrás de tradução. Isto, apesar de, um outro escandaloso, Jens Bjørneboe (de forma um pouco venenosa, conceda-se) ter escrito logo numa recensão publicada no jornal Aftenposten em 1956: «Condição necessária para escrever uma boa auto-biografia é que um homem tenha tido experiência suficiente; coisa que nunca aconteceu a Mykle.»

O facto é que o livro perdura. Talvez tivesse caído no esquecimento, fosse hoje uma curiosidade histórica, datado e irrelevante. Mas pela condenação e o escândalo que suscitou, ainda hoje por aí anda pousado em cima das mesas dos cafés, lido nos eléctricos, deixado esquecido nos aeroportos. Ao quererem condená-lo e suprimi-lo asseguraram-lhe vida eterna. Como tantas vezes acontece, um julgamento, uma sentença, tem o efeito contrário ao que determina.

Era pelo fim do ano, ali no café do costume, uns momentos de descontracção depois do trabalho, navio lá em baixo atracado. Tinha lido a blogosfera, e em jeito de balanço find’anuário, pensei que devia deixar aqui um agradecimento a três blogs que foram descoberta e leitura grata em 2015. O Xilre, o Mãe preocupada, o Leira p’la tardinha… Tal como as minhas Selbuvotter, tricotados de branco e preto (só que de letras, não de lã, como é próprio dos textos), um conforto diário contra a friagem dos dias, bonitos de se olharem.

Depois, olhei o Sangen om den røde rubin  e pensei nas sentenças que trazem o efeito oposto. Preferível é, trabalhador braçal de longas horas e salário curto, sendo o mundo e as coisas o que são e sempre foram, que não largue por esse mundo das letras a ofender os outros com elogios.

Sobre soliplass

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