Os passeios em Aker Brygge

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Lembram-se da trama do romance policial de Jo Nesbø? O Boneco de Neve?

Se lembram, talvez recordem lá para o meio do romance a cena da investigadora da polícia que, convencida que um tubarão dos mídia é o assassino, lhe invade a casa. Um apartamento de topo. E depois salta do apartamento para a água. Será num apartamento destes, aqui em Aker Brygge em Oslo. A foto é de agora, a esta hora tardia da madrugada.

O problema com essa cena é que, andando a gente pelos passeios contíguos aos apartamentos que bordejam a água, não se vê sítio onde, pela distância do prédio à água, se consiga evitar o mergulho em cimento. A água, pelo menos a mim, parece-me demasiado longe do edifício a não ser para um especialista de salto. E mesmo assim…É claro que na ficção se pode esticar um pouco o cenário.

 Atravessando um período bastante difícil o passado Verão, deitei mão da terapia do costume. Exercício físico até à exaustão. Quilómetros e quilómetros de estrada naquela bicicleta de corrida da foto deste post. E foi num desses dias, ao regressar, já lusco-fusco, que quase dei uma cabeçada num gajo com uma bicicleta velha, embrulhado num casaco que lhe tinha ar de servir também de cama ao cão. Cruzou a pista, uma pista plana ao lado da marina onde eu vinha a queimar os “últimos cartuchos”, já próximo de casa. Pareceu-me Jo Nesbo. E claro, ficou logo perdoado, que provavelmente lá andava a inventariar cenários. Espero, se bem que apreciando os seus romances tudo lhe perdôo, que sejam um pouco mais credíveis. Mas isto é uma esperança minha; ele nada tem a ver com isso, nem qualquer obrigação de atender a pedidos, ou desejos, dos leitores. Não faltaria…

Agora que calha a propósito. Lembram-se do início do romance? Uma infidelidade que conduz a que o bastardo se sinta traído pelo mundo e decida vingar os pais que o não são? Tornando-se assassino em série e dos refinados? Aquela parte em que se discorre sobre a percentagem de filhos que se descobrem ilegítimos no mundo ocidental depois que apareceram os testes de ADN?

Às vezes penso nisso. Especialmente quando por artigos em jornais e gazetas que trazem fotografia tipo-passe, perorando na televisão, discursando no parlamento, vejo alguns dos da nossa direita pugnando pelos valores de família. Talvez não fosse má ideia correr-lhes uns testes de ADN entre eles e a descendência para verificar se os valores de família que apregoam são legitimamente fundamentados. A haver desbaste nessa perorante vermina (nest of singing birds, não abusando do dr. Johnson) sempre era um melhoramento…

Ainda que se tome em conta a observação que as há com sentimentos vis, metálicos, tal como aqui nos apartamentos de Aker Brygge a gente não consegue imaginar quem fosse suficientemente louco para tentar o salto – dada a insuficiência da largura do passeio até à água –, no caso de alguns defensores da família em Portugal (e ainda metem Deus e a Pátria no novelo) a gente mal imaginar mulher que fosse tão perversa a ponto de transmitir genes daqueles à posteridade.

Mas claro, às vezes a realidade ultrapassa a ficção.

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