Saquinho dos abeguengos

Do meu trisavô, coitado, pouco mais ficou (ainda assim coisas de trinta-e-um-de-boca) que uma história ou duas. Já no fim da vida, viúvo, para ajudar no sustento da casa, comprou uma cabra que guardava por aqui e por ali. Barata; tinha apenas um chifre. Como o barato às vezes sai caro, esse detalhe fisionómico do bicho logo foi aproveitado pelos netos (já em novos súcia de pícaros) para o perseguirem gritando, a coberto de esquinas ou valados, «Hé cabra só d’um corno! Hé cabra só d’um corno!». Grito ambíguo. Só com muito boa vontade alguém veria no pobre animal o sujeito da oração. Vendeu a cabra.

Gorada a empresa da pastorícia, ganhou vícios de recolector. E assim surgiu na família um termo curioso: «o saquinho dos abeguengos». Um saquinho que trazia frequentemente consigo e onde ia deitando coisas sem uso encontradas ao acaso: pregos, fivelas, linguetas de fechadura, parafusos, molas, arames, cordéis…

Vim a saber mais tarde (em conversas de reparação de uma cabana em penhasco de uma floresta norueguesa) que esse hábito, ou mania de aproveitar, foi também o do filósofo Arne Næss. Assim o jura o meu melhor amigo aqui em Oslo que com ele privou de perto; que tudo aproveitava, prego ou fósforo. Talvez trauma que lhe ficou da altura (anos sessenta) em que se viu em necessidades e sentiu obrigado a furar a segurança do quartel da NATO de Kolsås à procura de algo para beber. Ele e Jens  Bjørneboe (que viria a contar o episódio no livro Norge, mitt Norge –Noruega, minha Noruega -) tinham-se esquecido da garrafa de vodka, não tinham com que acompanhar o caviar. Episódio que pode ser lido aqui a partir da p.8.

 Ao encontrar-me ontem no apartamento daqui esse mesmo amigo olhava um saco-mala de rodinhas, velho e desconjuntado, quase pronto para o regresso a Portugal. Deu uma espreitadela, e, claro, a bagagem era a do costume: 18 quilos de livralhada, duas camisas. Rimos de novo com a história do saquinho. Esta mania de coleccionista aproxima-se perigosamente da do saquinho dos abeguengos do meu trisavô. Um nó de víboras (Mauriac) Campos de Níjar (Goytisolo), edições de romances novas por junto com paperbacks desconjuntados. E finalmente encontrada, a biografia de Gerda Grepp.

Conto-lhe também uma coisa curiosa. O termo «abeguengos» parece que só eu o uso. Ou assim diz a pesquisa do Google.

 

 

 

Sobre soliplass

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2 respostas a Saquinho dos abeguengos

  1. E, quando um dia se fizer estudo aturado do Âncoras, dirá o investigador que aqui encontrou um hápax: “abeguengos”.

  2. soliplass diz:

    É possível cara Ivone. Quem um dia alguém que largue goste de caçar esse tipo de ave (hápax) aqui venha parar a estas charnecas.

    Tenho que lhe contar também a história de um verbo que mais ninguém usa a não ser naquela nave (do meu conhecimento) e que teve origem em frioleiras das minhas. Claro que não tem uso em língua portuguesa mas pode ser traduzido. Só lhe fazem as declinações em norueguês e, até hoje, creio que não suscitou ainda a atenção dos lexicógrafos. É o verbo Kiklikir. Que traduzido para português daria qualquer coisa como quiclicar. Pela sonoridade quase parece parente desse que a gente encontra por baixo das fotos dos blogs: na frase «clicar», «clique na foto», etc.

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