Quiclica-me

 

 

Ao verbo «clicar» já todos se habituaram. Tornou-se corriqueiro escrevê-lo por baixo das fotos que se usam por aí na blogosfera. Aquilo que poucos sabem é que no interior de um navio no norte da Europa existe um verbo que quase soa aparentado: o verbo «quiclicar». A sua história e origem, se bem que contradiga as primeiras palavras de Eco no Nome da Rosa «In principio era il Verbo…» parece dar alguma razão a Jorge de Burgos: muito do desacerto do mundo se deve à necessidade humana de pilhéria e de risota. E alguma razão teria tido também o velho dr. Johnson ao afirmar da vida nos navios: «a man in a jail has more room, better food, and commonly better company». Pelo menos disso se podem continuar a queixar os colegas a quem calhei em sorte; apesar de nos navios modernos haver mais espaço e melhor comida.

Há já muitos anos contei a história e a conversas que por vezes ocorriam na aldeia no dia seguinte:

– Olha já enganaram mais outro esta noite c’a brincadeira dos galos!

-Quim foi?

– O t’Silvino Martins. Ouviu cantar os galos, alevantou-se, sem olhar pó relójo, nin s’alembrou de olhar prás estrelas, enxadica às costas e ala direito à horta das Sintieras pra ir regar. Ópois claro, quando lá chegou não se via nada, lá teve assentado no tanque à espera que se fizesse de dia pra começar a dividir a áuga sem cortar os pés aos tomateiros. Faço ideia as pragas qu’ele pra lá deve ter rogado!

Era a brincadeira dos galos em que me tornei o especialista da aldeia. Despia a camisa, imitava o cantar do galo, dava umas pancadas com os dedos na pele. A imitar o espanejar do bicho, batendo as asas. É claro que os que estavam próximos, nos quintais da vizinhança, não se deixavam enganar. Mas um ou outro, no cabeço mais distante, respondia. Começando um, começavam os outros. Uma cantoria parva às três e meia ou quatro da manhã. Às vezes, um ou outro agricultor mais idoso, preferindo regar de madrugada, caía na cantiga.

O cantar de galo para acordar os colegas está na origem do verbo, que, normalmente só se usa ali, em toscas declinações, na língua norueguesa. Há um que marca o número, levanta o telefone e chama-me. Eu canto. O que levantou o telefone diz depois algo do género «está um dia bonito de Verão, céu azul, o sol desponta, o galo acabou de cantar. Um dia cheio de possibilidades…». E o outro, estremunhado e mal dormido, que provavelmente passou a noite a ouvir o gelo roçar no casco Dinamarca acima, que sabe que sol só lá para Maio, lá se levanta para a chatice do costume.

E é assim que entre nós quase já não usamos o verbo «acordar». Antes o «quiclicar». À noite, antes de sair, pede um (ou uma) colega: «gidder du å kikliki meg kvart på seks?»; ou, traduzindo: «não te importas de me quiclicar às seis menos um quarto»?

E foi assim que há uns meses ouvindo tocar o telefone durante o sono, atendi. Uma música altíssima, som de galos e galinhas, uma risota pegada. Tinham descoberto o Techno Chicken. Riam que nem perdidos quando cheguei lá acima. «Hoje fomos nós que te quiclicámos!»

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Sobre soliplass

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