Boxe em Berg

 

 

Um combate de boxe singular. Dele pouco ou nada se sabe. Os oponentes desapareceram, os que a ele assistiram também. Quem arbitrou, desconhece-se. Nenhum jornalista assistiu ou reportou. Descreve-o Marte Michelet em Den største forbrytelsen , (cap. 22, pp. 253-7) a partir de relato oral. Os detalhes foram desaparecendo com os familiares de Charles Braude que entre si falavam do caso. Michelet não nos fornece a data, 1943, 1944?

Charles Braude iria ser (tudo o apontava nesse sentido) o campeão de boxe da categoria pesos mosca na Noruega. Mas estalou a guerra. Judeu, viu a família directa ser deportada para campos alemães. No seu caso, por ser casado com uma ariana, escapou à deportação e à morte, sina dos seus próximos. Mas acabou no campo de concentração de Berg, nas redondezas de Tonsberg – o denominado «galinheiro de Quisling» – sob administração da polícia nacional.

É aí que durante o cativeiro um dos guardas o reconhece. Um guarda que era também um praticante amador de boxe. Convida-o então para um combate de boxe a pretexto de precisar de praticar para uma competição que se avizinhava. Mas talvez o motivo fosse apenas o desejo de se gabar posteriormente aos amigos que tinha derrotado um campeão. Charles recusa a princípio, não quer combater. Mas aconselhado e incitado – «fá-lo por nós, mostra a esses cobardes que se escondem atrás das armas e dos uniformes…» – pelos outros prisioneiros a combater decide-se. E aceita.

Em ringue improvisado numa das barracas ocorre então o combate. Charles, uma sombra do que fora, magro, só ossos, de onde sobressaíam as articulações inchadas (e doridas) típicas do estado de sub-nutrição extrema, entra no ringue improvisado e defronta o guarda desfardado, de calções e camisola. Não se sabe quem desferiu o primeiro golpe, quantos rounds durou o combate. Sabe-se que o guarda acabou no chão, sangrando numa poça de suor, uma luva levantada em frente da cara em sinal de desistência.

Charles recua, confuso, encosta-se a uma parede. Poderia ter, facilmente, acabado com ele. Num golpe de vingança. Assim só ganhou o combate que ninguém sabe em detalhe como se passou. Mas não sabe exactamente como isso se irá reflectir no seu futuro. Menos comida, mais castigos? Mais trabalho forçado? Afinal o guarda só perdeu o combate, continua, em conjunto com os colegas, com os meios de lhe fazer a vida num inferno.

Lembrei-me do guarda do campo derrubado, ontem, ao ouvir Marco António Costa a esgrimir contra o Orçamento de Estado. A vitória do eleitorado de esquerda nas últimas legislativas, por seu lado, parece um pouco semelhante à vitória de Braude no campo de Berg.

Sobre soliplass

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