Cavalos ao lusco-fusco

Pergunto-me às vezes se séries como a um livro por dia de Pedro Correia no blog Delito de Opinião não causam mais mal que bem à sociedade portuguesa. Noto as pessoas absortas e distantes, digerindo literatura e conhecimento…

É claro que compreendo esse fascínio pelas letras. Quantas vezes, ao passar por um cavalo branco, não lembro a morte de Struensee e aquele sub-capítulo de Per Olov Enquist no belíssimo e trágico romance Livläkarens besök, onde lhe descreve a morte e deixa a constatação de que não ficaram na Dinamarca monumentos ao malogrado ministro-mor do rei demente… Det finns i dag inga monument över Struensee i Danmark

O parágrafo que descreve a despedida de Struensee com o seu cavalo Margrethe é inesquecível. Traduzindo livremente da página do link acima:

” Quando foi levado ao cadafalso em Østre Fælled, o general Eichstedt veio, talvez como uma atitude ostensiva de desprezo ou expressão requintada de malícia, montado no próprio cavalo de Struensee, Margrethe, um árabe branco a quem este tinha escolhido o nome tão invulgar. Mas se a intenção era infligir mais uma dor ou sofrimento ao condenado, o intento saiu gorado; Struensee, tranquilo, como que se iluminou, levantou a mão num gesto que parecia acariciar o focinho do cavalo, e um sorriso breve, quase que de felicidade, deslizou-lhe no rosto como que se acreditasse que o cavalo tinha vindo por sua causa, a despedir-se.”

Ao lusco-fusco hoje, um cavalo na beira da estrada. Pasta ali no terreno contíguo, tinha partido a corda, algo que é comum acontecer em animais deste porte. O instinto de voltar a casa ao anoitecer, talvez. E ali estava, parado, desviando a cabeça, recuando, à passagem dos carros.  Um cavalo ainda jovem, esbranquiçado, com traços de árabe.

003(o dito cujo, já sereno e ancorado)

Parei a moto, peguei-lhe na corda que arrastava no chão; foi cordato, deixando-se acariciar e guiar até ao poste de telefone no fundo do terreno onde o deixei amarrado depois de uma breve confraternização. E estas coisas surpreendem-me. As gentes do meu país, tão absortas em literatura e conhecimento, os óculos escuros ao volante depois do sol se pôr, não podem desperdiçar três minutos para parar. Para socorrer o bicho, para evitar a morte de um animal magnífico. Ou até, a morte de dois ou três humanos seus semelhantes numa colisão com um animal daquele porte.

Isto é capaz de ser, imagino eu, derivado a coisas como um livro por dia. As pessoas andam perdidas em elucubrações, meditativas, na sétima-esfera. Azar meu, ir cruzando com tanto cavalo ao lusco-fusco…

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Sobre soliplass

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