Comportamento exemplar; às mil maravilhas; de horizontes largos, de pescarias embriagantes

 

(Abril de 1950)

“Nessa altura, em S. João da Terra Nova, havia mais de mil pescadores portugueses no porto e o comportamento de todos eles sempre foi exemplar. S. João é um lugar bastante pequeno: a cidade está aninhada junto à água e estende-se a custo pelas colinas junto ao mar. Ir a terra significa passear pelas ruas principais, já que toda a cidade não passa de uma cidade de marinheiros, e bem interessante, por sinal. Mas é um lugar em que a presença do marinheiro é tida como certa, e por isso mesmo alvo de poucos cuidados e atenções. Se existe uma missão para apoiar os marinheiros, eu nunca a vi aberta, nem nunca nenhum português foi convidado a entrar e a usufruir dos seus serviços. Os mil pescadores limitavam-se a andar pelas ruas, sem um tostão no bolso (pois não podiam ganhar dinheiro enquanto os navios não começassem a apanhar peixe, e, de resto, muitos deles já tinham recebido algum dinheiro adiantado para sustentar a família, antes de deixar Portugal). Por isso, os pescadores entretinham-se a olhar para as lojas, que estavam bem abastecidas de diversos produtos, e a observar os passantes. Sempre que o clima o permitia, muitos homens iam em grupo até aos ribeiros mais próximos, levando consigo a roupa suja para lavar, batendo-a contra as rochas, já que nos lugres não havia água doce disponível para esse efeito. Outros deixavam-se ficar pelo cais, ocupando-se a jogar futebol com uma bola de pano, gozando muitas vezes da companhia de crianças locais. Todos os dias, acabada a escola, grupos de crianças desciam ao porto onde estavam ancorados os lugres e os navios-motor e saltitavam à corda em redor dos homens portugueses, ou então balouçavam-se nas amarras que estivessem com mais folga. Era estranho observar uma boa dúzia de pescadores de tez escura saltitando e segurando cordas para um grupo de dez ou doze rapazes e raparigas em grande risota. Mas quase todos os portugueses eram homens de família e adoravam brincar com as crianças. Previsivelmente essas crianças não falavam português, nem os pescadores inglês, mas essa linguagem era perfeitamente desnecessária. No fundo, entendiam-se todos perfeitamente e davam-se às mil maravilhas.”

Alan Villers, in A Campanha do Argus, Cavalo de Ferro, 2014. (p.107)

Na capa (desta 3ª edição) vem reproduzido um comentário no Público: «é um livro fascinante…de horizontes largos, de pescarias embriagantes».

 

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