Foram-se as varinas e a respectiva literatura…

 

 

 

“Abro-a e leio um recorte ao acaso: «afrodites que se habituaram a ser mulheres…» Outro escritor evocava-lhe o ritmo dos quadris. E,  sem cerimónias nem meias-medidas, comparava-as no velho estilo da Fénix Renascida, a «esconderijos do futuro». E, mais adiante, não hesitava em afirmar que as «sogras», com que as peixeiras equilibravam nas cabeças as canastras, «pareciam coroas de rainhas em tronos de palácios marinhos». 

Claro que essas mulheres míticas passeavam sempre numa Lisboa calcetada de pedras fendidas de rosas e Avenidas de olaias eternamente em flor, até no inverno, e os candeeiros de iluminação pública e os marcos do correio também em flor…

Era nesse cenário de perfumes e poentes lilazes que as peixeiras passavam flexíveis, com espinhas dorsais de bambu dançante… 

Lembro-me de que, em certas noites chuvosas, quando resolvia regressar a penates, farto de chapinhar em lodaçais e chafurdos, despedia-me assim dos amigos:

– Adeus! Vou para casa. Vou para as varinas!

E a malta ficava a olhar-me, invejosa da tal pasta que me esperava em casa, cheia de um sol que não acabava nunca.

O sol não acabará, mas as varinas acabaram, nunca mais as vi, essas lindas deusas matinais com ondas escondidas nos corpos. Agora os peixes vendem-se em sacos de plástico nos supermercados.

Foram-se as varinas e a respectiva literatura, também, sem que ninguém intentasse lançar-lhe a mão salvadora. Nem as autoridades turísticas que poderiam facilmente ressuscitar o mito.

Para isso bastava vestir algumas raparigas, escolhidas com os cuidados dos encenadores dos espectáculos de revista dedicam à selecção das «girls». Neste caso, moças com perfis gregos e certos ligeiros toques fenícios e cartagineses, sem esquecer bocas godas e olhos árabes.

Depois seria fácil ensiná-las a andar e espalhá-las pela cidade em frisos turísticos, com canastas à banda, mão esquerda na cintura, mão direita em espiral e corpo já a insinuar cheirinhos de maresia.

Quando as freguesas chamassem por elas (psiu! psiu!) em vez de as insultarem – suas estas! suas gulosas! – ajoelhariam, desaparafusando as canastras da cabeça, para mostrarem, em cadências graciosas, um ou dois carapaus de prata ou um goraz a tinir ouro.

E depois, ala que se faz tarde! E voltavam a pôr-se a caminho, a apregoar «pescada do alto», com vozes agudas de soprano convenientemente estragadas no Conservatório

De repente interrompo-me, envergonhado. Que diabo estou para aqui a escrever?

Em vez destas tontices decorativas, não seria melhor recordar as varinas verdadeiras, de carne e osso, que geraram o mito morto? Algumas belas, por certo. Mas de «ancas opulentas» e «troncos varonis» como as descreveu Cesário que nunca mentia, embora às vezes fingisse a verdade.

Não digo que não se encontrassem entre elas, aqui e ali, moldes de deusas, com desenhos gregos nos perfis e gentileza de braços erguidos em jeito de bailado. Mas a maioria era grosseira e rude, a arrastar chinelos. Outras – coitadas! – até usavam óculos de aros de tartaruga. E muitas sofriam de varizes que lhes marcavam as pernas de chagas.

Mas, sobretudo, cheiravam mal, a trabalho.

Ao terrível trabalho humano, denunciado pelo suor a sardinhas, que os deuses sempre odiaram e os homens só amam quando o douram de mitos para o explorarem ou transformarem em preguiça aparente.”

José Gomes Ferreira, in Calçada do Sol; diário desgrenhado de um homem qualquer nascido no princípio do séc. XX.

.

Sobre soliplass

email: friluftogvind@gmail.com
Esta entrada foi publicada em Uncategorized com as etiquetas , , . ligação permanente.