A mesa de Harry Hole e uma história inédita de Jo Nesbø

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Para os leitores dos policiais de Jo Nesbø talvez não seja novidade o cenário em que primeiro encontramos o detective Harry Hole em Oslo. Sempre em luta com a tendência para o alcoolismo, é no Restaurant Schrøder, um antigo restaurante-bar castanho (designavam-se por “brun pub” – bar castanho – os locais noruegueses de rambóia escurecidos pelo fumo de tabaco) que o encontramos pela primeira vez na sua cidade. Uns colegas da polícia vão procurá-lo no seu «bebedouro» favorito para lhe darem notícia de uma missão que o espera. Todo o resto da acção do segundo romance da série – o título em português seria “Baratas”: Kakerlakkene (1998) – decorre em território tailandês. É aqui, nesta mesa debaixo da pintura da velha igreja de Aker que vão dar com ele, dorido, a tomar analgésicos de meio litro. E espicaçá-lo, atirando-lhe à cara o problema de alcoolismo. Mas Harry não se fica (de facto derrubará um após uma discussão) e censura-lhes a coragem. A coragem de terem espancado uns adolescentes embriagados apanhados numa rusga com laranjas embrulhadas dentro de uma toalha molhada. Se não estou em erro, logo no terceiro capítulo. O anti-herói de Nesbø não luta apenas contra o crime. Também com os desvios da força. E os romances acabam sempre por ter (a par de descrições magníficas da cidade) um veio de crítica social.

Pois é esta a mesa. Jantámos lá hoje, no Schrøder, eu e o meu velho amigo livreiro, também ele amante de comida tradicional e despretenciosa que sempre ali faz parte do menu. E conta-me a história de quando Jo Nesbø, sendo vizinho no mesmo bairro da sua loja de alfarrabista em Majorstue, apreciando talvez o local, lhe entrou loja dentro e ofereceu o resto dos seus romances cujas vendas não tinham esgotado as edições. Se fosse preciso, estava disponível para os assinar. Tudo grátis. Ainda antes de ser famoso. Já benevolente. Duas boas almas. A da foto conta-me a história mais uma vez.

* Adenda:

Como as histórias curiosidades são infinitas, mais uma:

É ali, na velha igreja de Aker que a pintura retrata, que aparecem pela primeira vez registadas as palavras «fabrikarbeider» – trabalhador fabril – e «fabrikpige» – literalmente “rapariga de fábrica”, ou trabalhadora fabril. Nos registos  de alteração de residência do pastor da igreja. No primeiro caso em 1857, no segundo em 1862. Pelo menos assim o sustenta Niels Petter Thuesen no seu História de Oslo; ano a ano – desde os tempos antigos até hoje.

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