Matemáticos

004

É claro que já conhecia de nome, dos artigos da ética. Mas nada me preparava para a surpresa, quando, no âmbito do seminário de integração em 2008 na Universidade de Aveiro, vi aquele ancião espumado da boca – qual pileca a mascar figos – e trôpego, sem chama ou entusiasmo, perambulando na sala, com um casaco linho que (por jeitos do enrugado) também lhe servia de pijama. Um pai-do-céu-escangalhado. Já lhe tinha lido o tratado O que é a Escolha Pública? Para uma Análise Económica da Política.

Mas quem seria aquele outro, espongiforme homnídeo de ombros largos (à escala de um bico de funil) sentado à secretária com um fateco da loja dos trezentos e uma gravata de mau gosto? Foi anunciado pelo ancião que o jovem descia da London School of Economics para nossa iluminação e benefício; e lia o delfim-mancebo de uma papeleta com trejeitos de grande autoridade e científico distanciamento… Era afinal o valet de chambre, o co-autor. Disse cá c’os botões: não falha que este não dê um grande matemático. E deu.

Refiro-me a matemáticos numa outra acepção que não a corrente. A que lhe dá João Palma-Ferreira nesta novela que (pessoalmente) acho substimadíssima na literatura portuguesa. O Vida e Obras de Dom Gibão… Nem só por novela, por tratado de sociologia lusa.

Como se sabe a novela logo no seu início relata os passos de uns «Anacoretas de obra grossa» como ali os designa Palma-Ferreira: três maltrapilhos que naquele incerto século andam pelo mundo em busca de sustento. Porque me parece claro que se tivéssemos que transpor para um cenário do séc. XVII a descrição dos matemáticos da Academia de hoje carrejando ao ombro os santos do momento ( santo Hayek, por exemplo) e dos cronistas que se rojam e espojam  por páginas de gazetas gritando por milagres da virgem da capela que dê sustento, o texto haveria de ser parecido com este trecho do Dom Gibão. Deliciem-se:

“E assim foram discreteando, como Anacoretas de obra grossa e com piramidal sabedoria e mais profunda experiência, até chegarem a um povoado cujo nome nem se adianta, nem se suspeita.

Muitos vizinhos se acotovelavam em frente de uma ermida assaz esfumada pela hera e estava o povo em grande silêncio, reverendo e opaco. Dirigiu-se Dom Gibão a um cura da companhia a perguntar-lhe os porquês de tanta solenidade e respondeu-lhe o cura (era de Viseu e de esquipática cabeça), em voz vagarosa e corpulenta que aquela ermida andava sumida nas sujidades do tempo. Do altar viria em breve, em boa procissão animada a berimbau e cascavéis, uma Virgem milagrosa dos séculos romanos que pelos frios de Abril visitava doentes e entrevados; e eram tão celebrados os seus milagres que até o rei de França mandara ouvir informações e lhe remetera uma coroa de prata, em adiantamento, pela cura da gota. Ditas estas gravidades pelo venerável albornoz, surgiu ao som dos traques, carretilhas e buscapés e aos ombros de quatro matemáticos*, a curandeira Virgem, dona de ponto-em-branco e tão formosa que ao povo, conhecido e desconhecido, ali logo embeveceu. Sabendo das novas e vendo a função, logo Dom Gibão, fulgurante nas imaginações e prático em questões deste jaez, desabou no cascalho, a rebolar-se como se fosse um comensal do Malcozinhado atacado de cólicas, aos gritos e às punhadas no peito, a soluçar: – Milagre, milagre, milagre, três vezes milagre.

Dom Serafim também não era peco. Abrasou-se de virtude como se tivesse exposto ao fogo de Vulcano, lançou fora as ligaduras e com sonoros gritos, a rir e a chorar, jurou ali mesmo que só de olhar para a virgem ficara são como um menino acabado de nascer. Foi a praça abaixo com gritos e apitos e veio o povo rodeá-los, a benzer-se e a tocar-lhes nas roupas. Acorreu, esbaforido o bom Abade e logo ali mandou tirar os testemunhos e fazer as cerimónias da ordenança, coisas que andam hoje num tratadinho de contrições e prodígios.

Num ápice ficaram fartos. O capitão das milícias deu-lhes um jumento; o abade vestiu-os de lavado, com hábitos de frade; o senhor daquelas terras regalou-lhes uma bíblia espanhola e o resto do povo encheu-os de prendas, salpicões e relíquias. Durante oito dias, como se fossem soldados dados por praças mortas, folgaram pelo povoado, cantaram às cigarras e deitaram abaixo algumas lavradeiras que pilharam pelos campos. Dom Gibão manteve fornidas discussões teológicas e aritméticas com o Abade, enquanto Dom Serafim, muito precavido e com queda para tesoureiro, ia cosendo pelo fato as moedas que as velhas todos os dias lhes lançavam, com quantos amens podiam roufenhar. As notícias de tão grave despacho chegaram à cidade e foram escutadas pelo Bispo que os quis ver para comprovar a maravilha.”

*Nota do autor (p.14) :

“Na literatura do século XVII, particularmente na castelhana e, no âmbito desta, na novela picaresca, os matemáticos eram ainda tomados como astrólogos, dados às adivinhações e à explicação ou interpretação de toda a casta de mistérios. Quevedo, entre outros autores, satirizou, como tal, os matemáticos.”

Sobre soliplass

email: friluftogvind@gmail.com
Esta entrada foi publicada em Uncategorized com as etiquetas , , , . ligação permanente.