Marinheiros de guerra – um monumento cintilante

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Voltando à mesa (não a esta da foto mas à de de Harry Hole), e ao terceiro capítulo do Kakerlakkene, policial de Nesbø:

Quando os colegas da polícia se dirigem a Hole ele pouca atenção lhes dá; em vez disso chama a atenção para um velho magro que se senta numa mesa num outro canto. Chamam-lhe «o último dos moicanos», conta Hole sem levantar o olhar.

“Marinheiro de guerra … há uns anos havia bastantes por aqui, mas agora quase que desapareceram. Aquele acolá foi torpedado duas vezes durante a guerra. Pensa que é imortal. Na semana passada encontrei-o a dormir sobre uma mancha de neve lá em baixo em Glückstadgata depois da hora de fechar. Ninguém à vista, escuro de bréu e dezoito negativos. Quando finalmente o consegui trazer à vida olhou para mim e mandou-me para o inferno. (…) Ontem à noite fui até à mesa dele e perguntei-lhe se se recordava do acontecido, para todos os efeitos tinha salvado o gajo de morrer congelado. Sabem o que me respondeu? (…) Disse que era imortal: “posso bem viver com o ser um marinheiro indesejado neste país de merda” disse, “Mas é do diabo que nem o próprio Sã Pedro queira ter nada a haver comigo.” Ouviram bem? Nem o São Pedro…”

Numa penada Nesbø evoca um conflito social e uma das mais graves injustiças que se cometeram na Noruega do pós-guerra. O descaso, a falta de apoio, quando não o ostracismo social para com aqueles que na marinha mercante norueguesa sofreram durante anos as agruras da guerra. E que, passada a guerra, ao regressarem vinham em frangalhos, física e psicologicamente.

É disso, do sofrimento destes homens, da sua coragem, da sua humanidade, do seu humor que trata a série de romances de Jon Michelet da foto acima. Os romances da série «Um herói do mar»- «En sjøens helt». Saiu o quarto volume, já no final de 2015. É coisa difícil de definir. Talvez a melhor definição que lhe vi aqui numa recensão seja «um monumento cintilante».

Impressionante é sem dúvida a investigação histórica que o suporta. Algo de gigantesco. Não apenas a dos cenários de guerra em que a acção decorre. Também a história dos navios, das tripulações, dos capitães, a posição que um navio determinado tinha num comboio específico ao atravessar o Atlântico, por exemplo. A par disso, a evocação da história de navios que já não estavam ao serviço na época. Mas que eram assunto constante nas conversas dos navegadores. Detalhes de navegação, astronomia, faróis, baixios, meteorologia, história dos países visitados, conflitos sociais, detalhes de cidades como Halifax, Manila, Nova York, Rio, Buenos Aires. Detalhes de portos, canais, praias, estuários, montanhas vistas do mar que serviam de pontos de referência. Tecnologia da época, os primeiros radares, minas magnéticas, salva-vidas, coletes, medicamentos, maquinaria a vapor e a diesel, desenvolvimento dos sindicatos, conflitos sindicais, hierarquia a bordo, armas, a introdução de um pequeno melhoramento na vida a bordo, que tantas vezes me passou pelas mãos: «um livro nómada»; livros que o sindicato enviava de navio em navio. Serviço que ainda hoje existe.

As partes da obra, os romances, são difíceis de definir. Por vezes são como um dos grandes romances do mar, de aventura marítima. Por vezes como um romance neo-realista, com o foco apontado a questões sociais, ao sofrimento daqueles que tinham escolhido a profissão do mar. Gente pobre, gente excluída, em fuga, deixando o passado para trás. Que traziam para bordo as suas sequelas e frustrações, as chagas da vida passada. Com descrições do desconforto físico, da dor aquando de uma amputação a bordo, da falta de protecção numa cidade ou país longínquo quando um marinheiro ou oficial tinha que desembarcar doente ou mutilado. A sobrevivência em águas frias após um naufrágio. Ver definhar um homem por quem já não há nada a fazer. Com algo que irá constituir um enorme quebra-cabeças para um tradutor: uma panóplia de dialectos locais noruegueses, línguas estrangeiras, jargões. E o humor com que são usados no dia-a-dia de bordo.

Partes da obra, quase que nos lembram as conversas sérias do Life of Johnson, com os diálogos a revelar o prazer de conversar nos quartos de vigia numa ponte escurecida perscrutando o horizonte, sobre o sentido da vida, sobre política internacional, sobre o destino trágico de outros navegadores, sobre amores e desamores, sobre as estrelas e o universo. Sobre as cargas, sobre as características dos navios e do seu governo. Sobre a responsabilidade de cada homem pela vida do seu próximo. Outras vezes, as conversas são levadas ao extremo do disparate e do humor, da embirração e da teimosia, cheias de trocadilhos, jargões, piadas, discussões acesas sobre ninharias, como saber se um certo ponto navegável é ainda um rio ou já um estuário. E aí quase que temos a impressão de ter caído dentro de um outro Tristram Shandy, de um outro Bouvard et Pécuchet, de um outro D. Quixote.

A par disso, é por vezes como ler uma enorme obra de historiografia. Um grande romance histórico. Os ataques, o armamento, os avanços e retrocessos da guerra, a luta dos capitães (especialmente os dos navios-tanque) para que as luzes das faixas de costeiras na costa dos Estados Unidos, com os seus casinos e locais de diversão também estivessem apagadas. De nada valia um navio navegar na escuridão se contra essa faixa de luz era visível e um alvo fácil para os submarinos alemães. A sede de notícias sobre os desenvolvimentos na frente de combate, as alianças e os pactos, e, a permanente saudade de «casa», a incerteza de voltar a ver a família e o país natal.

Um monumento cintilante sem dúvida, este que conta a vida, às vezes na primeira pessoa já que há sempre as notas do diário clandestino, coisa em si proibida já que era estritamente proibido manter um diário que pudesse dar informações ao inimigo em caso de captura, de Halvor Skramstad, um pouco mais que adolescente quando, vindo da área florestal de Rena, optou pela profissão do mar e se viu, do outro lado do mundo, envolvido no conflito. E de Muriel, a irlandesa por quem se apaixona após um encontro numa breve saída a terra. Por quem luta, telefonando, escrevendo cartas que nunca era certo que chegariam ao destino, nunca sabendo se viverá para a rever. O romance é também uma magnífica história de amor. Um monumento cintilante. E um magnífico acto de justiça.

 

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