Marinheiros de floresta e coisas toscas em Finnerödja

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(foto:Alexander Bergman)

Colega sueco, vinte e poucos. Fomos conversando, que quando a conversa pende para o sério é ponderado e sensato. Conta-me que vem de Finnerödja. Falo-lhe de Lennart Karlsson. Do velho Lennart Karlsson que vivia com a mãe ainda, uma anciã já entrada nos noventa com uns olhos lindos de morrer, sorridente e calma numa casa de madeira vermelha.

Foi em 85 que, em vagabundagem escandinava, à boleia, vindo de Gotemburgo, perguntei ao velho Lennart que vendia morangos na beira da estrada se precisava de um trabalhador. Um rapaz sueco que tinha apanhado boleia comigo até ali a isso me aconselhou quando lhe disse que o dinheiro estava curto, que provavelmente teria que voltar para trás, rumo a sul. Era ainda início de Agosto, muito Verão pela frente. Nem perguntou pelo currículo o velho Lennart, dali me levou até à quinta no Volvo bordeaux. Deu-me uma cabana também de madeira vermelha, com alpendre, junto à casa sobre um relvado de verde intenso iluminado pelo sol. E desse tempo guardo uma memória de tranquilidade e de paz. De benevolência na gente que me acolheu como se lhes fosse família. Do marulho de um lago, de vento fresco, florestas pensativas debaixo de chuva, maçãs, esquilos em traquinice de galho em galho…

Conta-me o colega sueco do pai que teve empresa madeireira mas que uma embolia cerebral quase que paralisou do lado esquerdo. Da liberdade na floresta, do prazer de deitar uma moto-serra ao ombro e partir por entre as árvores para um dia de trabalho. Da liberdade daquilo. Mas que tudo parou. A cidadezinha definhou, nem o comboio lá pára já. Não há emprego, o comércio quase que fechou. Depois abriu o ficheiro de fotos e mostra a série de bancos feitos a moto-serra de troncos. Orlam agora um caminho que o pai gosta de fazer. Andando a custo, servem-lhe agora os bancos para os descansos espaçados. Eu próprio os teria feito parecidos…

Vejo os bancos, rapidamente aparelhados a preço quase nulo, imagino o prazer de construir aquilo. Válidos, passados todos estes anos os versos de Hans Børli, do poema Vi eier skogene  (Somos donos das florestas) publicado originalmente em“Likevel må du leve”, 1952:

 […]                                                                          […]

Du kan kjøpe tusen mål skog,            —        Podes comprar mil hectares de floresta

og tusen mål til,                                      —        e mil hectares mais,

men solefallet kan du ikke kjøpe         —        mas não podes comprar o declinar do sol

og ikke suset av vinden                         —        nem o sussurro do vento

og ikke gleden ved å gå heimover        —       nem a alegria ao voltar a casa

når røsslyngen blømmer langs stien   ––      quando é florida a urze ao longo do carreiro

Nei, vi eier skogene,                                —      Não, nós possuímos as florestas

Slik barnet eier sin mor.”                       —      Tal como uma criança a sua mãe.

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