Beijos; Einar Tambarskjelve e a boca fina do machado

 

Lia, uma destas noites a meio do mar Skagerak, no Xilre, no post Um beijo, a citação de um verso de Raquel Lanseros:

Apenas quem beijou sabe que é imortal.

Não desdenhando o formoso verso da ilustre poetisa andaluza, há outro famoso, que vai deixar saber ao beijado que é mortal. O episódio marca o início do poder absoluto e da sucessão dinástica na Noruega e o início do declínio Viking. Presumivelmente vaticinado (ou assim o conta Snorre Sturlason dois séculos mais tarde numa das suas sagas) pelo rei que viria a ser conhecido por Harald Hardrådes; ou «Harald de governo severo». Harald Sigurdsson. Um formidável trota-mundos, aventureiro e mercenário, que com as suas campanhas ao serviço de alguns dos mais poderosos monarcas do seu tempo conseguiu reunir um tesouro que lhe permitiu comprar a sua ascensão ao trono da Noruega. O beijo em causa é vaticinado a Einar Tambarskjelve que na altura lidera uma série de camponeses oprimidos pelo rei Harald. E que é um bom conhecedor das leis antigas para as quais apela em reuniões dos parlamentos, um guerreiro renomado. Harald começa a temer a sua capacidade de liderança. E acima de tudo as suas exibições de poder militar.

O episódio que nas edições populares das sagas aparece ilustrado com esta gravura que representa Harald a ver desembarcar Einar em Nidaros (a Trondheim de hoje) acompanhado de um número excessivo de homens, no que se lhe afigura como uma demonstração demasiado ostensiva de poderio militar.

Harald é também conhecido como poeta. Ou rapsodo. Não um poeta no sentido moderno, já que a poesia édica não procura nem a rima nem a formalidade ou perfeição métrica. Procura acima de tudo o inesperado a associação de ideias de molde a causar espanto. A este respeito vale sempre a pena reler Las Kenningar de Borges, nem que seja para nos deliciar com a mordacidade do argentino e revisitar a frase “El frenesí taurino-gallináceo del reverendo Padre no es el mayor pecado de su rapsodia.”

Relatou Snorre (do cap.43-44  da saga de Harald Hardrådes) que ao ver essa demonstração de força de Einar Tambarskjelve, Harald teria improvisado o seguinte dito poético (kvad):

Her ser jeg at den djerve
Einar Tambarskjelve,
som mang en gang sjøen pløyer
går i land så mannsterk.
Han full av styrke venter
å vinne kongens sete.
Ofte huskarer færre
fant jeg i følge til jarlen.
Han, som gjør sverdet blodig,
bort vil drive fra landet
oss, om Einar ei kysser
øksemunn den tynne.

Traduzindo apenas as partes a negrito

[…]

Ele, que faz a espada sangrenta,

da sua terra para longe nos expulsará

a nós, assim Einar não beije

boca de machado, a fina.

Dias depois Einar (e o filho) eram mortos. Snorre conta nessa saga que, golpeando Einar que tinha ido a reunir com Harald deixando o filho à porta da sala escurecida, uns espetavam outros cortavam…

Desde aqueles remotos tempos – em que ainda não era possível ironizar com a vida íntima de José Eduardo Moniz – ficou conhecido como o que beijou a boca fina de um machado.

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