Uma quase-personagem de Paasillina

 

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A quem eu gostaria de ver atribuído o Nobel no próximo ano? Agora que Galeano faleceu, talvez a Arto Paasilinna. As razões sendo múltiplas, poderiam ser resumidas numa: aumentar o riso no mundo. Começando por Portugal seria divertido ver quantos (resmas, paletes) se levantariam imediatamente (à imagem do que aconteceu ainda recentemente com Tranströmer) como especialistas na obra do genial finlandês. Depois porque era forma de divulgar melhor as histórias mirabolantes, burlescas, sempre cruzadas com um veio de melancolia, divertidas, críticas da sociedade moderna, onde os animais ocupam quase invariávelmente um lugar central na acção dos romances ou novelas. Arto Paasilinna é como que a literatura picaresca de El Siglo de Oro espanhola transplantada para as florestas finlandesas. Ou pelo menos essa é a impressão que me fica depois de lidas cinco ou seis novelas traduzidas para norueguês.

A cada vez que nos jornais ou na tv vejo esta lãnzuda criatura das fotos acima ocorre-me um episódio de um dos romances, ou novelas, do escritor finlandês. Sei que pelo menos dele existe versão francesa: «Le Bestial Serviteur du pasteur Huuskonen». Se traduzido para português talvez o intitulassem «O bestial ajudante do reverendo Huuskonen».

Oskari Huuskonen, é um pastor da igreja finlandesa a quem os paroquianos, que não podem com ele, oferecem um urso órfão de mãe elecrtocutada ao perseguir uma cozinheira por um poste de alta-tensão acima. A cozinheira tinha acabado de dar com a mãe ursa e os dois filhotes na dispensa deliciando-se com os acepipes que tinha preparado para um casamento. A sua ira acabaria em pânico, perseguida pela mão ursa, poste acima. Resultado, ursinho órfão, pai adoptivo, por incumbência dos paroquianos, o pobre pastor. Ursinho que logo a mulher baptiza de «diabo». Isto é, antes de fugir a sete pés do urso e do marido. Oskari Huuskonen toma a seu cargo o «diabo» e trata de educá-lo. O animal revela-se prodigioso, fiel, bom companheiro. Aprende a ajudar à missa (tanto nos rituais ortodoxos como nos protestantes), a passar a ferro, a limpar o pó, a servir bebidas (só não conseguirá aprender a fazer nós de gravata), a arrumar as malas. E mesmo nos momentos que à primeira vista pareceriam mais difíceis de acompanhar na vida de um urso, vai proporcionar boas surpresas. A primeira é quando no primeiro ano é necessário tratar de pôr o urso a hibernar. Huuskonen constrói-lhe um abrigo de hibernação e vai acompanhar o sono do urso nesse inverno. Por sorte, uma jovem investigadora de uma universidade finlandesa (liberal de costumes) mostra-se interessada em acompanhar a hibernação do urso, monitorizando os seus sinais vitais. E o felizardo Huuskonen, acaba também por ser presenteado com um estudo anatómico e passar um inverno feliz.

Incompatibilizado com a igreja oficial finlandesa, o pastor parte então com o jovem urso por um périplo que o levará ao Ártico em serviço num navio de cruzeiro russo que transporta turistas finlandeses (nas desolações do território russo encontra a operadora de rádio Tanya e outro inverno feliz), daí descerá a território dos antigos países de Leste, indo para sul para mais navegação a bordo de um destroço de navio que conhece os últimos dias no Mar Negro e no Mediterrâneo, vindo a naufragar já na costa inglesa.

No meio de todas essas peripécias há uma particularmente engraçada. Certo dia, o bom pastor e a acompanhante Tanya tentam evangelizar uns marinheiros relapsos num bar em Odessa. As coisas descontrolam-se e arma-se no bar escaramuça das fortes entre evangelizadores e evangelizados. E aí, o urso entra em socorro do seu mentor, dispersando à punhada a herege e ímpia marinhagem.  O pior é que, dias depois, o urso não pára de se coçar, dando mostras de grande desconforto. Naquele antro de má-vida, talvez em virtude do contacto físico aquando da renhida briga, o urso apanhou chatos. Está, da ponta das orelhas à base das unhas, infestado dessa praga incomodativa e sugadora. E a única solução, está, como é bom de ver e o viu o bom pastor e a operadora de rádio, tosquiar o urso. Pelo que, na biografia do bom «diabo», consta também o ter sido completamente escanhoado, a única maneira de se ver livre dos incomodativos hospedeiros.

Confesso que, às vezes, olhando a lãnzuda personagem das fotos acima, sempre muito embrulhada em abafos, penso no urso de Paasilinna. Não é desejar-lhe mal, mas do que ela talvez precisasse, para se desembrulhar um pouco, fosse de uma boa camada de chatos. É quase tão divertido de imaginar quanto a tosquia e os do bestial ajudante do pastor Huuskonen.

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