O carácter sagrado da vida

Esta discussão recente sobre a eutanásia, com os sectores mais conservadores da sociedade, à direita do espectro político, a recusarem-na e a clamarem pelo carácter sagrado da vida, traz de volta à memória um episódio velho.

Inverno de 92. As escolas de parapente eram poucas, a modalidade muito recente. Desavisados, por economia de tempo, por ficar mais perto da zona de residência, escolhemos (eu e o meu melhor amigo) uma que operava na zona de Sintra. A escola de João José Figueiredo. Desavisados por pouco tempo. O aviso iria chegar muito em breve. Aí pela terceira lição.

A escola congregava uma fauna de instruendos, que, ao que me apercebi, eram gente bem posta na vida. Trajados a rigor com roupas e calçado de desporto de montanha, jipes reluzentes. Avistavam-se uns Nissan Terrano e os Jeep Cherokee estacionados em lugar de destaque, brilhando ao sol. Tiques e linguarejar da Linha…

Aí pela terceira lição, num campo junto a um declive perto da Base Aérea de Sintra, a que designavam por “os cardos”, treinávamos no chão o controle do parapente. Fazendo-a voar ao vento, de pés ainda no chão. A certa altura nessa tarde aparece sobre nós alguém voando numa asa-delta com motor. Diz, aos berros, do ar, que vai aterrar, que vai aterrar lá em baixo no vale. O instrutor diz-lhe que não. Ele tenta, de qualquer forma. Vem de norte, faz-se ao vale. Mas a meio do terreno, escondido pela erva e pelos cardos, existe um pequeno muro de pedra. Quando o piloto vê o obstáculo tenta levantar de novo, não consegue altura suficiente, e, desviando-se um pouco para a direita tenta pousar no declive que ladeia o vale. O declive é irregular, tem pedras, e a inclinação lateral não favorece o pouso. A asa toca no chão com as rodas, salta, embica, solta peças, levanta poeira, amassa-se. Cá de cima sem conseguir ver o estado do piloto no meio dos destroços, só ouvimos o motor acelerado que continua a trabalhar. Sem pensar, ou discutir o assunto, largámos imediatamente a correr encosta abaixo, eu e o meu amigo. Lá chegados demo-nos com um problema bicudo. O motor da asa está acelerado, em nível rotação elevada, porque a hélice de madeira se partiu. A hélice ao partir-se decepou dedos de uma mão ao piloto. Um deles cerce, que encontramos no chão ainda. Ao tentar libertar-se dos cintos como os dedos decepados o piloto está tingido de sangue. Não conseguimos perceber a extensão dos ferimentos. Mas o que é preocupante, acima de tudo, é que o depósito de gasolina que abastece o motor bi-cilíndrico (o motor de um carro Honda 600 que foi adaptado à asa-delta) é um jerrycan de plástico (creio que de 20 litros, assim me pareceu no instante que o olhei) que se rompeu e que verte gasolina sobre o motor acelerado. A gasolina evapora-se, há o cheiro de perigo eminente. Ou safamos aquilo depressa ou morremos queimados os três. Mas o painel de instrumentos aos pés do piloto está escaqueirado, onde parar aquela traquitana? Não há muito tempo, pelo que me decido, enquanto o meu amigo liberta o homem, a pará-lo arrancando dois cachimbos das velas. O que me preocupa é se se produz alguma faísca nessa manobra. Porque aí, adeus ó vindima!

Puxo os dois cachimbos em simultâneo. Corre bem. O motor pára. Ajudo o meu amigo com o homem apavorado. Recolho o dedo. Agora há outro problema. O homem é paraplégico. Anda numa cadeira de rodas no dia-a-dia, mas também voa de asa-delta. Ao que ouvimos depois, levanta de um campo perto de Bucelas. Há que carregá-lo encosta acima. E já lá em cima, que transportá-lo ao hospital de Sintra. O dedo decepado embrulhado num guardanapo de papel. Debalde. Não haverá possibilidade de o recuperar por cirurgia. O meu amigo conduz então o homem, num comercial de dois lugares, um Peugeot XAD 309 ao hospital de Sintra, por uma estrada de terra batida cheia de solavancos que dali parte até à outra de alcatrão.

E da outra gente que por ali estava, consumida de aflição ante o acidente, ninguém se mexeu. Ninguém ajudou a carregar o ferido. Ninguém ofereceu o jeep para vencer a estrada esburacada e levar outra pessoa que atendesse o ferido até ao hospital. Fica-me a certeza porém que para qualquer um deles o “carácter sagrado da vida” é um valor indiscutível. Se bem me lembro estavam preocupadíssimos. Em choque, mesmo.

É o problema principal destas coisas. A lei divina prescreve que a vida humana é um valor sagrado. Que direito à vida é um direito inalienável. Não prescreve, é claro, a obrigação de correr cem metros para ajudar um estranho. De arriscar a pele em churrasco tocado a gasolina. Ou de estragar os estofos de um todo-o-terreno.

Não é que que pense mal da nossa direita, ou que desdenhe dos seus valores. A experiência de vida (experiências como a acima relatada) é que me faz pensar que se tivesse de escolher entre aceitar a eutanásia ou aceitar que lhe manchassem os estofos do carro facilmente se decidiria pela primeira opção.

 

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