Economistas de outra estirpe: Gunnar Skjeseth

(imagem de 1938: http://www.arbark.no/Bildeserier/jernbanen/jernbanen.htm)

 

 

Ao tomar o comboio (normalmente em direcção ao aeroporto) penso frequentemente no destino e na opção daquele homem desconhecido que dali partiu há oitenta anos num comboio internacional que não deveria ter sido muito diferente deste; o da imagem. Imagino que bagagem levaria, que roupas, como avaliaria o risco para a própria vida que lhe traria a participação no conflito para que se voluntariava a combater por uma das partes , olhando o escuro  da noite gelada, os carris meio cobertos de neve. Partiu da estação ferroviária Oslo Ø (como era de ordinário denominada à época), na noite de natal de 1936. Formado em economia, activista de esquerda, bibliotecário do NKP.

Conheço poucos detalhes da vida que levou até àquela noite; que não conseguia encontrar emprego, lhe foi recusado emprego como operador de ascensor, por ser demasiado escolarizado, que custeou a viagem que o levaria dali a Paris e depois mais para sul, em direcção a Espanha vendendo parte da sua valiosa colecção de selos. De uma cidade francesa de fronteira, já na viragem do ano, escreveu ao pai, também ele um homem extraordinário (e personagem central do romance ProstenKristen Skjeseth), uma carta comunicando-lhe que iria combater como voluntário na Guerra Civil Espanhola. Essa carta, a última forma de contacto por parte do filho, seria a última notícia que o pastor de Kabelvåg teria dele durante muito tempo. A Gunnar Skjeseth restar-lhe-iam menos de três meses de vida. Morreu a 13 de Fevereiro de 1937 na batalha de Jarama, como atirador, no seu ninho de metralhadora.

Na pequena localidade de Kabelvåg há duas pedras com o nome de Gunnar Skjeseth. No cemitério da igreja a lápide do meio-irmão, nado-morto nessa primavera de 1937, filho do pastor e da madrasta. Ainda sem notícias do filho combatente, o pastor, assim o contou ao irmão Helge, tinha a sensação ao carregar o pequeno esquife que ia a enterrar os dois filhos. Quando a irmã menor de Gunnar, Eli, perguntou ao pai qual o nome que iria constar na pedra funerária, respondeu o pastor: «Se Gunnar regressar, decidirá ele o nome a gravar na pedra. Se não regressar, escreveremos o seu nome.»

Não regressou. O seu nome figura agora num pequeno memorial, numa estrada que sobe à montanha, atrás da igreja de Kabelvåg, num local onde o voluntário tinha plantado abetos em pequeno:

Minnestein (foto:)

Ninguém parece saber o porquê da data que consta na pedra ser a de 16 de Fevereiro e não a de 13.

As fotos são deste artigo de um jornal local, o Kabelvågavisa .

Por pena minha pouco mais conheço dos detalhes do primeiro voluntário norueguês a tombar em Espanha. O que li em Tusen dager onde a sua história e o seu percurso em Espanha não são contados em grande detalhe. E na biografia da repórter de guerra Lise Lindbæk. Lise conta que lhe fez companhia durante uma noite em que – estando acamada, doente com gripe – Gunnar lhe fez companhia; conversando sobre literatura e livros, o tipo de conversa rara de encontrar naqueles dias, dado que a maioria dos voluntários noruegueses não era muito escolarizada. Que Gunnar sofreu uma pequena operação a um dos olhos já em Espanha, para que melhor pudesse desempenhar a função de atirador de metralhadora. E que, contemplando os destroços da batalha de Jarama, lhe foi indicado o sítio onde Gunnar teria sido abatido na tarde de 13 de Fevereiro. Lise, mais tarde, ao encontrar-se com o pastor, descrever-lhe-ia o sítio onde o corpo estaria. Numa quase mentira piedosa, de alguma forma embelezada; se a memória me não falha, algo como: «Em Jarama, sob as papoilas, repousa o teu filho.»

Havia, nestes homens que partiam como voluntários para combater em Espanha a convicção ou consciência que o futuro da Europa se jogava já ali. Não estavam muito longe do que se viria a revelar verdade.

Um outro dos combatentes noruegueses que tombaram (depois de ter sido alvejado no estômago em Mediana, a 2 de Setembro de 37) foi o jornalista Martin Schei, que também partiu para Espanha aos 18 anos sem o conhecimento dos pais:

Ei side frå møteboka til Sogn og Fjordane Arbeidarungdomslag

(imagem dos arquivos de Sogn og Fjordane)

Meses depois escreveria ao irmão: «Se perdermos esta guerra isso significará, não apenas a ditadura fascista em Espanha, ou, melhor dizendo, uma colónia de estados fascistas. Não, isso significará uma vitória para o fascismo no nosso próprio país.»

Não é detalhe muito conhecido do público português, mas naqueles dias imediatamente antes do massacre de Utøya, a 2o de Julho, lembrava-se a passagem de 75 anos sobre a participação de voluntários noruegueses no conflito espanhol. Era descerrada uma placa comemorativa com nomes dos que tombaram no conflito. Entre eles, Gunnar Skjeseth.

Sete horas antes de começar o em tiroteio Utøya, um post no site da UAF dava a notícia da placa. Os tags: Utøya, sommerleir, internasjonalt, spania.

 

*  Adenda:

Peço, como naturalmente é meu dever e obrigação, mil desculpas por vir maçar os leitores com estes espectros do passado, armado de bibliografia rudimentar, com histórias de gente que foi natural de outro país. No entanto fascinam-me estes homens que foram lutar pela Europa e pela democracia naquele tempo tão distante. Neste caso, partindo de uma estação de comboios remota, anónimos, a expensas próprias, armados de convicções que hoje mal podemos imaginar. Há uma certa aura de mistério nas suas convicções, nos seus motivos.

Não é que, passando pelo aeroporto de Lisboa, não me lembre também ocasionalmente dos nossos que partem a lutar pela Europa e pela democracia. Entre eles o nosso Constâncio; ou o nosso Moedas; que o outro dizia que se fosse ele punha já a funcionar. Mas esses, os dessa insigne raça, raramente partem a expensas próprias. São celebrados. E sobre os motivos e convicções que os animam não resta grande o mistério. Para nossa vergonha colectiva, são públicos e óbvios.

 

 

 

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