Que andais a ler hoje dr. Soliplass?

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Tropas e Boiadas de Hugo de Carvalho Ramos. “Uma jóia fundamental da literatura regionalista brasileira que volta a ser publicada mais de cinquenta anos depois da sua última edição”, diz-nos a capa. Mas não vale a pena cair em enganos. É uma jóia fundamental (diria eu), da literatura mundial, e nisso apostaria dois alforges de maravedis. Que nos faz pensar o que mais de grandioso não teria produzido o autor não tivesse sido a sua vida tão curta.

Mas claro, isto, de “jóia fundamental da literatura mundial” é opinião, não decreto. Ajuíze o leitor se quiser perder meia hora (ou hora e meia, apreciando a verve, as descrições, a trama do conto, violento e comovido com o destino de gente, animais e natureza, simultâneamente) lendo o conto “Gente da Gleba” disponível no Vereda Literária. De onde, com a devida vénia, se transcreve este amuse-gueule:

[…]

“Benedito viajava longes terras.

Atravessara o Meia-Ponte em Pouso Alto. Seguindo as informações que lhe dera um  rancheiro perto de Morrinhos, enveredou pelo sertão das Abóboras, coito famigerado de  relapsos e trânsfugas, onde tem ido às vezes a política estadual suprir-se de acostados e facínoras para os motins locais.

Naqueles fundões, abandonando as fazendas de criação e indo pedir pousada a um rancho  de sapé que se acaçapa afogado no bamburral, à margem do ribeirão, o viandante vareja muitas  vezes a casa do sitieiro, sem que encontre um punhado de farinha, um taco de rapadura ou a  manta de carne-seca no jirau de mantimentos, fora a acolhida usual que lhe dá o hospedeiro.  Mas a clavina chapeada ou o rifle de estimação, topa dependurado, ao alcance, no gancho da  parede, junto à patrona couro d’onça bem fornida de cartuchos.

É o único luxo que se permite aquela gente hospitaleira…

Não raro, a arma permanece inativa no cabide meses e meses, quando não sai para uma  caçada d’anta ou espera de veado, ao tempo que os pequizeiros da chapada ou as tarumãs da  beira do rio começam a derrubar as suas flores e frutos.

Viajava de costume à luz das estrelas, ou sob o limpidíssimo luar daquelas paragens,  fugindo à mormaceira meridiana, num rastro que se lhe escapava muitas vezes com os informes  contraditórios, pousando hoje à sombra duma palmeira de buriti, dormindo adiante nos ranchos  solitários, que o município ou moradores das proximidades mandam construir à beira das  estradas, para o descanso do passageiro e o encosto forçado da tropa nos pastos fechados das  circunvizinhanças.

Assim rondou o sertão do Caiapó, despistado por um correio que lhe dera uns sinais  falsos na estrada de Jataí; e desceu margeando o rio dos Bois, certo já de encontrá-lo no  Paranaíba, se se não tivesse o preto embrenhado em Mato Grosso por Coxim, ou escapulido  para o outro lado das divisas mineiras, perdidas as pegadas nos centros populosos do Triângulo.

A pêlo-de-rato que cavalgava afrouxou logo no terceiro dia da jornada e teve de  barganhá-la em Morrinhos com um forte desconto de quebra, o que lhe transtornou os planos,  dando tempo talvez ao Malaquias de tomar o rumo que melhor lhe parecesse.

Entanto, obstinado como todo sertanejo, cedo ou tarde havia de topá-lo forçosamente.  Conhecia casos em que o batedor tinha ido pegar a sua caça no Uruguai; mas para o seu não  havia necessidade de tanto, pois que o preto, dormindo descansado na fiúza de seu braço e o  bote infalível, não teria decerto expediente para entocar-se naquelas funduras.

Desceu pois o rio dos Bois, e subiu beiradeando o Paranaíba, cujos afluentes engrossavam  com as chuvas, à passagem das primeiras boiadas que vinham do sertão.

Em Santa Rita, um arrieiro deu-lhe notícias seguras da estadia do nagoa em Caldas Novas  – vendera-lhe a besta de sela por uma tutaméia, com o produto adquirira na loja do Gaudêncio  uma garrucha niquelada e dous cortes de chitão enfestado, que ofereceu à roxa com quem se  metera aqueles dias à entrada do povoado. Lá havia a noite inteira bebedices e cantorias, numa  das quais saíra esfaqueado o culatreiro de sua tropa, atraído ao casebre pelos descantes de catira,  no meio duma rusga que os parceiros do nagoa acharam por bem armar às tantas da madrugada.

E assim dizendo, à porta do administrador onde proseavam, lá se foram encaminhando  para o rancho, a cuja frente a besta da fazenda recebia a ração do embornal, o ferro do  Quilombo sobre o quarto traseiro, enfileirada com as demais ao longo da casa.

Joaquim Culatreiro, o cabra que levara a facada, ainda desfigurado da sangria, veio até o  parapeito e confirmou as palavras do patrão. Que sim, era mesmo o Malaquias, um negralhão  espadaúdo, por sinal que tomara o seu partido no fuça, desarmando o cachaceiro que lhe tinha  aprontado à traição aquele aleive.

– Quanto à mula, seu moço – dissera em consciência o arrieiro – pode levar consigo, que  não quero animal furtado na minha tropa. O prejuízo é de duzentos mil-réis, mas irei entenderme  com o seu patrão, tão logo navegue naquelas bandas.

– Não resta dúvida – atalhou o outro –, e, enquanto não aparecer, aqui lhe deixo, a fim de  evitar transtorno na condução, o meu macho queimado. Até lá, vai-se remediando com ele…

Passou a sela dum para o outro animal, e após ligeira prosa, servida a café, com que o  obsequiara a companhia, postou-se a observar uma ponta de gado que descia para o porto,  estacionando na encosta, toda estarrecida ante as águas do rio, que turbilhonavam lá embaixo  numa extensão de cerca de mil metros, espessas e profundas.”

[…]

 

Sobre soliplass

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