Simplicidade

Domingo à tarde. Sol. Dias claros de inverno. Há, pelos domingos de província, rituais. Um idoso já viúvo que no banquinho de pedra, em frente da parede caiada, enseba dois pares de botas. Uns já prontos, ao lado do prato de bordas esfaceladas que serve para pousar as bolas amassadas. Sebo de borrego. Entro pela portinhola do jardim de alecrineiras e cumprimento, empurra a aba do chapéu que lhe protege os olhos do sol. Pede desculpa por ter as mãos untadas «se não dava-te um passôbem». Diz que se entretém com aquelas pequenas tarefas. Passar o tempo, azelar as coisas. Dês’qu’ela morreu, deus a lá tenha em descanso… Sento-me por ali um pouco a conversar, sentindo o cheiro do sebo, fazendo companhia. Falando de coisas simples, às vezes em meias palavras. Mundo rural… rituais de domingo.

Vou ali, passo pela aldeia para para pagar um serviço de serralheiro. Nunca sabem quanto é quando acabam o serviço, a resposta sempre a mesma. «Ainda nã fiz as contas, ópois logo pagas». Debalde. Ele não está, já era de calcular. Domingo à tarde, regularizar as contas.

Aparece ela, o mais novo escarranchado numa anca, a mais velhita atrás da saia, chupando no polegar. Voltas, passos perdidos da vida de província. E ao mesmo tempo, aquela simplicidade, a linguagem imediata a responder ao «ó da casa», «qu’é dele?».

No rádio do carro, Paulo Portas abre caminho à renovação da liderança partidária no CDS para se dedicar a projectos empresariais, no jornal agora, a ex-ministra das Finanças integrará a administração da Arrow, a partir do próximo dia 7 de Março. A empresa está envolvida na avaliação de activos tóxicos do banco. A ministra nega qualquer incompatibilidade…Que contraste com as «mãos untadas» do velho, com a simplicidade com que responde a mulher do serralheiro, sorridente, filho escarranchado numa anca «nã tá cá! Foi à volta, àrreceber!»

Sobre soliplass

email: friluftogvind@gmail.com
Esta entrada foi publicada em Uncategorized com as etiquetas , , , . ligação permanente.