Que se foda a palmeira e o pilar

Vendo o andamento do mundo, ouvindo as vozes preocupadas, lendo os sinais, atentando nos avisos, constata-se que a democracia e os valores ocidentais se vão, pouco a pouco, diluindo. Sociedade do espectáculo, hedonismo, crises económicas, desemprego, mercantilização da res publica; o diabo a sete.

Às tantas, um maduro começa a cogitar o que dirá o tipo que derrubar o último dos pilares da civilização ocidental. Provavelmente nada… sofrerá já – à imagem do que cortou a última palmeira da Ilha de Páscoa -, de “amnésia paisagística”. Refiro-me aqui ao trecho de Jared Diamond do cap. XIV de Collapse , e à famosa pergunta: What did the Easter Islander who cut down the last palm tree say as he was doing it?

 

“I suspect that landscape amnesia provided part of the answer to my UCLA students’ question, “What did the Easter Islander who cut down the last palm tree say as he was doing it?” We unconsciously imagine a sudden change: one year, the island still covered with a forest of tall palm trees being used to produce wine, fruit, and timber to transport and erect statues; the next year, just a single tree left, which an islander proceeds to fell in an act of incredibly self-damaging stupidity. Much more likely, though, the changes in forest cover from year to year would have been almost undetectable: yes, this year we cut down a few trees over there, but saplings are starting to grow back again here on this abandoned garden site. Only the oldest islanders, thinking back to their childhoods decades earlier, could have recognized a difference. Their children could no more have comprehended their parents’ tales of a tall forest than my 17-year-old sons today can comprehend my wife’s and my tales of what Los Angeles used to be like 40 years ago. Gradually, Easter Island’s trees became fewer, smaller, and less important. At the time that the last fruit-bearing adult palm tree was cut, the species had long ago ceased to be of any economic significance. That left only smaller and smaller palm saplings to clear each year, along with other bushes and treelets. No one would have noticed the falling of the last little palm sapling. By then, the memory of the valuable palm forest of centuries earlier had succumbed to landscape amnesia.”

O problema disto tudo, é que, tal como na Ilha de Páscoa de antanho – em que os indígenas ao mesmo tempo que derrubavam a última palmeira estavam tomados de mil e uma outras preocupações -, a tragédia do derrube dos pilares da democracia e dos valores ocidentais ocorre a par e passo com um número considerável de outras preocupações quotidianas que não podemos descuidar.

Vermos desaparecer os valores ocidentais e as práticas institucionais das nossas democracias, é apenas um dos nossos problemas diários. Eles são quando muito, uma parte muito pequena da nossa paisagem. Ou da nossa progressiva “amnésia paisagística”. Sendo importante acorrer a esse problema, há outros que não podem ser descurados sob pena de sermos trucidados na sociedade, de não sobrevivermos como indivíduos.

De nada nos serve a preocupação com os valores ocidentais e com a democracia (nem ninguém liga patavina à nossa voz cidadã) se somos avistados durante a semana e às horas de expediente sem fato e gravata. Se nos cair um filho na serventia a pedreiros. Se andarmos por aí em bmw de série abaixo de cinco. Se trazemos iliteracia financeira estampada no rosto. Se não sabemos escolher da carta de vinhos ou usar os talheres…

O que dirá o que derrubar o último pilar dos valores ocidentais e da democracia? Provavelmente nada. Que tem que ir mandar arranjar as unhas e verificar o câmbio dos títulos. Talvez.

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