Tolerância muçulmana

Agora mesmo, aqui ao lado, um colega de trabalho conversa ao telemóvel (não sei com quem ou sobre o quê) em paquistanês. Sei que mais de metade do que falamos, ele e eu, todos os dias, é risota e pilhéria, que, quando puxado, é um dos mais pícaros e engraçados que por aqui andam. Se tomamos juntos um elevador, quatro ou cinco decks (ou pisos), é certo que chegamos lá a baixo a rir. E as colegas escandalizadas. Vocês deviam ir presos!

E da primeira vez que com ele falei a coisa poderia ter começado mal. Veio ter comigo à cozinha, à hora da refeição das quatro da manhã em que era servida carne de porco, de facto confeccionada pelo meu colega de turno nessa noite. Pedia se lhe arranjava uma alternativa, outra coisa que não carne de porco. Em jeito de quase desculpa por incomodar ou dar trabalho, tímido, disse que era uma coisa da sua fé, uma coisa a respeitar…

Bruto todos os dias (e noites, especialmente quando de turno e atarefado) respondi abrupto:

– Claro, temos mil opções. O que queres? Isto, ou aquilo, assim ou assado? Sempre que for carne de porco e o meu colega não arranjar outra opção passa por aqui que tudo se arranja.

Ficou contente. Até ao balde de água fria que lhe caiu nos ouvidos de forma inesperada:

– Mas não penses que faço isso por respeito à tua religião. Faço isso por respeito a ti e como uma forma de seguro de vida. No dia em que tivermos uma colisão ou incêndio a bordo, pode ser a ti que calhe andar comigo aos ombros aí por uma escada acima. Quanto à tua religião desprezo-a. Mas não te preocupes que a minha desprezo-a mais ainda porque a conheço melhor. No fundo, as religiões, todas elas, servem apenas para os que mais as gritam não passarem por todas estas horas de esforço e trabalho e má paga por que tu e eu passamos. Os seus ministros, gente sem fé nem honra nem compaixão.

Aceitou. A comida, daquela e doutras vezes, a opinião. Passou uma década, os momento de riso  que aconteceram desde então, gozando com isto e aquilo, dizendo pilhérias e contando anedotas têm sido incontáveis. Quando os filhos o visitam a bordo deixa-me pegar-lhes ao colo. Gostam (os dois) que imite a voz dos animais. A mais pequena escarcalha-se quando imito o relinchar de um cavalo. Pede mais. Galos, cabras, perdizes, gatos, carneiros…

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Sobre soliplass

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