Papagaios e um fogo de artifício de pragas: «fy for et liv!»

 

Mario Vargas Llosa, Umberto Eco and Salman Rushdie, May 2008 -by Beowulf Sheehan For this meeting of “The Three Musketeers”, go to PEN (include the audio of the event) thanks for this reminder to: entregulistanybostan: Trío de nobelizables: Vargas Llosa, Umberto Eco y Salman RushdieVia

 

Passando a ler o Elogio da Derrota, dei com estas duas fotos (aqui, e aqui) a ilustrar dois dos posts do autor. Papagaios é coisa que sempre me lembra uma das frases do quarto parágrafo de um romance (meio chatito na minha opinião) de Salman Rushdie; o The Enchantress of Florence.  Se bem que, na  frase (bonita, sem dúvida) os papagaios sejam verdes ao contrário deste da foto: «Shrieking parrots exploded like green fireworks in the sky

Li esse romance chatito a bordo de um navio que se encontra hoje em desmantelamento numa praia do Bangaladesh, num denominado «cemitério de navios». Em fotos que vi recentemente numa revista norueguesa, olhei a velha carcaça com alguma nostalgia. Ali, ao sol, no coberta dos barcos salva-vidas, tive um dos meus lugares favoritos de leitura. Foi nesse recanto do deck que deparei com a frase dos papagaios verdes pela primeira vez um dia de Verão, vendo passar no horizonte a Dinamarca.  Mas havia ali outra história, que metia um papagaio (de que cor não sei) de marujo.

Tinha acontecido há muitos anos (na década de cinquenta ou sessenta) a bordo de um navio de carga antiquado, a que o contador se referia de forma pejorativa como skuta (uma corruptela de skute – veleiro ou escuna) e não como skip – navio.

Contava-a Ivers, um primeiro oficial barrigudo e pândego, normalmente quando – já com um grão na asa, congregando uma audiência escarcalhada de riso à sua volta -, lhe dava para contar histórias de navios, casas de putas, partidas e piratarias, tempestades, bebedeiras. E bichos. No tempo em que os navios tinham bicho de bordo, mascotes. Naquele, onde começou em adolescente como ajudante de cozinha, havia um papagaio. O papagaio do cozinheiro. Em águas frias, sem grandes aquecimentos ou ares condicionados, o sítio predilecto do papagaio, ou pela proximidade do dono ou pelo calor do fogão, era numa prateleira ou grelha imediatamente acima do fogão. E tudo correu bem até um dia…

Há na língua norueguesa, uma expressão que designa algo como vergonha: fy; que afinal não difere muito da arcaica inglesa, fie. E que é muito usada também para praguejar. Entre outras coisas contra a qualidade de vida. É assim que «Fy! for et liv!» pode ser traduzido como «que vergonha de vida», «que vida de merda», «que inferno de vida». E era exactamente isso que o bicho tinha aprendido. O cozinheiro ou quem por ali passava gritava de um lado a praga contra a vida «fy for et liv» e o bicho respondia. Todos riam da conversa e era um dos divertimentos de bordo.

Mas o fogão (antigo, como a escuna) era de gás. E mais não foi preciso que o cozinheiro se tenha distraído um dia, com uma outra ocupação ou porque alguém o solicitou, para que entre o espaço de tempo de ter aberto o gás e acendido a chama, se desse a explosão. O papagaio alvoraçado e em chamas esvoaçou então pela cozinha gritando «que inferno de vida! que inferno de vida!» «fy for et liv! fy for et liv!» . Um fogo de artifício de pragas.

A história despertava o riso (inevitávelmente) pelo insólito da situação, não por crueldade ou indiferença para com a sorte do bicho. Aliás, a tradição dos animais de bordo (já uma vez aqui referi isso) era de cuidado, não de crueldade. Ivers tinha sempre o cuidado de acrescentar que a morte do animal umas horas depois devido às queimaduras tinha causado a bordo consternação geral.

Apesar do azar que lhe foi fatal e das pragas que gritou com a aflição, não teve má vida. E família poderia também tê-la tido pior. Sepultaram-no no mar, numa caixa de madeira que lhe fez o carpinteiro. Ao largo do Japão. Todos os homens à amurada.

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