Anciãs de jackpot

É raro, raríssimo, jogar em lotos ou lotarias. Uma das razões é algo que teima em perdurar na memória e que me impressionou na altura. Andava pelos vinte e poucos. O sortudo a quem saiu o prémio da lotaria também. Comprou um Alfa Sud vermelho. Uma noite, vindo de uma festa com cinco amigos amontoados no Alfa, despistou-se e abraçou com o desportivo vermelho um poste de electricidade. Só ele sobreviveu. A sorte sorrira-lhe por pouco tempo. Uns meses…

Voltando do apartamento em Oslo hoje, em direcção ao cais onde o navio atraca, ao passar por Bygdøy Alléolho a casa de jornais e de jogo onde costumo carregar o cartão dos transportes públicos. Um placard anunciava na entrada um jackpot no Viking Lotto. Gosto do sujeito da casa, entrei, comprei dois cupões, coisa irrisória, cem coroas.

Ao dirigir-me à saida, puxando já a porta, vejo uma senhora já bem passada dos setenta, bengala e casaco de cor creme, andando a custo. Segurei a porta, convidando-a a entrar primeiro. A resposta foi brusca, a cara quase zangada:

– Sai cá para fora para o sol, homem bonito e jovem! (estava sol no pavimento, à imagem do que é mostrado no google street onde se pode ver também a grande árvore que fica defronte). Só então, ouvindo as palavras, percebi que gracejava, que a cara severa de velhota rezingona era também parte do gracejo. Respondi na mesma moeda:

– Que escândalo, dirigir-se assim ao marido de outra!

– Não consigo evitar!

– Poucas conseguem!

– Oh mundo, existe ainda, o bom-gosto!

Ainda não foi o sorteio, o prémio, gracejar num passeio ao sol com uma anciã norueguesa nunca antes vista (que me lembre), já cá canta. Dezenas de casos destes fazem-me sorrir ainda que já passados. Atrever-me a pensar que esta é a minha gente.

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Sobre soliplass

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