O Meças, o grande guerreiro, uma história grande, outra pequena e… a história do costume

 

 

 

Confesso que a crítica de António Guerreiro no Publico ao romance O Meças, de J. Rentes de Carvalho me irritou para lá da conta. Aquilo, parece-me, nada diz do romance em si, mais me parece simples má-educação, vulgar conversa de taberna (apesar do palavreado rebuscado), que crítica.

Mas isto, é claro, são coisas minhas, eu que sonho com o dia em que apareça uma crítica literária num jornal que diga qualquer coisa do género: «olhe caro leitor, fulano assim assim publicou um romance que versa sobre isto e isto, veja lá caro leitor se aquilo o ajuda a compreender a sua vida e os problemas da sociedade em que vive». Sonho com esse dia. Mas, como passei pelo meu Canetti e pelo seu  Massas e  Poder, como já estou avisado do julgar e do desmascarar como manifestações do (ou ansiedade pelo) poder, espero sentado.

Por mim li O Meças quatro ou cinco vezes. Nem sei quantas porque inúmeras vezes lá voltei para ler este ou aquele trecho. Que vos posso dizer do romance? Não arriscarei a dizer coisa nenhuma porque não sou a pessoa mais indicada. O Meças toca em assunto demasiado próximo do que vivemos na família com um indivíduo ressentido e violento (gozava até de uma relativa afluência económica) que infernizou a vida a muita gente e mutilou o futuro da mulher (a minha tia mais nova) e das filhas. Que fez a velhice da minha avó (a única que conheci) uma aflição permanente pela última das suas quatro meninas. Não serei a pessoa mais indicada para uma avaliação distanciada do romance.

De Rentes de Carvalho, todos o sabem, sou grande admirador. Faz-me falta. Estou-lhe grato pelo que escreveu. Diga dele o crítico o que disser, tanto se me dá que escreva com hiperliteratura como com uma caneta de três bicos, tanto se me dá que escreva com as unhas dos pés (e desculpem-me o vernáculo) como que escreva com os colhões de um burro velho. Assim eu ache que o que escreve me faz falta. E eu começo logo a desconfiar que ele cá faz falta quando, ao ler o que escreve, um simples cristão dá de imediato com uma verdade insofismável: Portugal não fica na Avenida de Berna. Gosto de geografia, o que há-de a gente fazer?…

A crítica de António Guerreiro, quando a li, soou-me a algo de já conhecido. Parecia-me que o tom e o palavreado, as acusações a Rentes de Carvalho (e o ralhete com os que andam a ler hiperliteratura), eram dejá vu. E eram. São similares ao que aconteceu aqui na Noruega há oitenta anos. Mas o que aconteceu aqui foi pior. Olhem estes dois livros da foto:

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São as primeiras edições, uma que tinha e outra que fui a desenterrar num alfarrabista. A primeira, da esquerda, é o seu romance Vi pynter oss med horn (Enfeitamo-nos com cornos), de 1936, e a segunda uma colectânea de artigos seus no semanário Aktuell.

Não sei o que deu a Aksel Sandemose para escolher um título tão original (por junto, já que o enfeite, desde que o mundo é mundo, não peca por originalidade) mas o certo é que o romance irritou um dos homens mais poderosos do seu tempo aqui na Noruega. C. J. Hambro. Hambro foi um homem notável, líder do partido conservador (Hoyre), um partido que à época era também aquilo que na ciência política chamamos «partido de notáveis» – típico pelo padrão de recrutamento, estrutura interna e tipo de eleitor. Foi um escritor incansável (publicaria um total de 26 livros ao longo da vida), era um homem com uma educação eclética, filólogo. Foi também um caso notável de longevidade política pelos anos que se manteve no activo. E era um crítico virulento com os livros que lhe desagradavam. A Hambro, que era na altura também presidente do parlamento norueguês, desagradavam-lhe os escritores que vindos de extractos mais baixos, tinham por tema a vida do homem comum do seu tempo, as suas dificuldades e dilemas. As críticas virulentas e destrutivas a Sigurd Hoel constituem exemplo.

A crítica ao romance de Sandemose em 1936, nas páginas do Morgenblad lembra-me um pouco a de António Guerreiro porque Hambro acusou o romancista, entre outros mimos, de ter escrito o romance como que sob o efeito de «uma ressaca de exibicionismo» e que tudo aquilo mais não parecia que um «ávido remexer nos genitais». Sandemose não se ficou e processou-o por injúria. Perderia o caso em 1938 e ficaria com as custas processuais às costas. 400 coroas norueguesas no total. O caso é hoje lembrado como importante não só na história da literatura norueguesa como no tratamento jurídico de questões que se relacionem com a liberdade de expressão.

Os anos rodaram. E em 1965, Sandemose, num artigo publicado no Aktuell intitulado Pão e Vinho, conta um episódio estranho de que ninguém já hoje se lembra por tão vulgar e insignificante. Talvez nem Sandemose lhe desse grande importância, eram artigos ao correr da pena, coisas de jornal ou revista que normalmente se esquecem no dia seguinte. A página é esta tal como aparece na colectânea de 1973 e é um episódio que particularmente gosto:

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Traduzindo sem grande cuidados:

Ia pela Bygdøy allé abaixo rumo ao Lapsen, rumo ao restaurante Bagatelle que ali fica, um bom e popular restaurante. A certo ponto não conseguia mais caminhar, tive que me apoiar numa árvore. Um homem parou e perguntou: Você está doente? Respondi com a verdade, que doente não estava, mas que o pé esquerdo há muito andava a falhar. Ele, resoluto, tomou-me debaixo do braço e ajudou-me até onde tinha que ir. Pelo caminho veio a verificar-se que me conhecia de vista e perguntou se tinha feito algo quanto ao problema no pé. Sim, disse eu, um cirurgião em quem tinha confiança tinha feito uma operação inútil no dedo grande, e que talvez brevemente tivesse que passar por algo pior. Ele disse: tu vais perder o pé? Fiquei surpreendido e respondi: sim, talvez, de facto foi aventada a possibilidade.

Ele parou e consequentemente também eu tive que parar. Disse: você tem que ver se se aguentar ao passar por isso, porque temos cá necessidade de si, – nem que você ande só num pé.

Entrei, visivelmente comovido no restaurante. Nenhum dos meus próximos alguma vez me tinha dito algo de tão comovente. Manquejei para uma mesa e pensei: Talvez no fim de contas alegres alguém. Ajudes alguém.”

O que eu acho particularmente interessante aqui é a hesitação entre a forma «tu» e «você». O tratamento por «tu» é algo de muito invulgar naquele tempo, ainda mais entre desconhecidos. Mas gosto principalmente daquele «temos cá necessidade de si», que em tradução mais literal seria «temos cá uso para si.»

Os anos rodaram novamente. E em 2001, já muito depois da morte de Sandemose, poderíamos encontrar nas páginas do Morgenblad um artigo onde o autor descreve a experiência gratificante que foi ter lido em 1979, aos 19 anos, o romance de Sandemose Vi pinter oss med horn. De certa forma lembra uma parte do livro La Coca de J. Rentes de Carvalho em que um adolescente descobre os prazeres e o encanto da leitura num casarão do Minho.

Eu gosto do género de páginas como aquela de Sandemose em que o desconhecido («zé das couves», o homem anónimo, o que cá se chama Ola Nordmanndiz ao escritor que precisava cá dele; podem ser mais que um episódio. Pode ser uma coisa coisa mais significante: aquilo que nas ciências sociais designamos como «case study». O «case study» nada ou pouco dirá sobre a extensão de determinado fenómeno mas pode tipificá-lo desvendando as razões porque ele acontece. Tinha razão o desconhecido que ajudou Sandemose e lhe disse que ele fazia falta?

Hoje sabemos que sim. Se nos levantarmos ali do café onde as duas fotos foram tiradas e entrarmos na livraria Tanum na Casa da Literatura em frente, rapidamente constatamos que a sociedade precisava dos seus livros. Mas nem é preciso levantar. Do todo-poderoso figurão Hambro, o esteta, o cultor da linguagem bela, dos seus vinte e seis livros publicados nenhum se encontra à venda nas livrarias Tanum. Encontra-se sim, pesquisando, que há à venda uma sua biografia. E de Sandemose (ou sobre Sandemose) encontramos duas páginas de oferta, trinta tílulos disponíveis. Se formos à outra grande cadeia de livrarias, a Ark o panorama é o mesmo. Ou seja, a grande história da polémica com Hambro, a pequena história do homem que acha que o escritor faz falta, dá na história do costume.

Por que é que eu vos trago este episódio da história da literatura norueguesa a respeito da crítica de Guerreiro a Rentes de Carvalho? Porque me parece que ela revela um fenómeno similar. Estamos eu e outros a ler Rentes de Carvalho, e achar que ele cá faz falta. E talvez isso diga menos do valor de um ou de outro dos seus romances que sobre as nossas necessidades.

Portugal mudou, somos mais cosmopolitas, há mais gente com educação superior, lemos em várias línguas, somos mais igualitários. Aliás, a primeira vez que vi Rentes de Carvalho numa feira do livro em Lisboa, nem ele se lembrará já, o escritor consagrado e o professor que nos chega da universidade de Amsterdam estava a fazer algo de muito invulgar em Portugal: estava a deixar que uma funcionária da editora, cinquenta ou sessenta anos mais nova que ele, o tratasse por «tu».

Penso que é por causa disso, não por causa da hiperliteratura, pássaro, aliás, que poucos avistam e menos acham no fricassé. O leitor , em maior grau, corresponde aos desejos do romancista: Fantasio interlocutores num café virtual, suponho neles qualidades de sabedoria, cultura,  inteligência, e uma atenção educada.

Creio que é isto, mas não ando aqui para impor opiniões a ninguém. A cada qual os seus juízos. Mas de uma coisa estou certo. Crítica daquela como a de António Guerreio ao Meças não me serve. Creio que não serve a nenhum leitor culto aquela de ir buscar Flaubert pelo estilo. Flaubert, o leitor o sabe, e quem o não sabe rapidamente o descobre ao lê-lo, é também uma excelente descrição da sociedade do seu tempo. E compaixão: «Ma pauvre Bovary sans doute, souffre et pleure dans vingt villages de France à la fois, à cette heure même.». E crítica da impiedade: «Je suis trop sensible !» do pére Roque, no Educação Sentimental.

Mon pauvre Meças.

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