Outros engenheiros: Werner Fahrenholtz

 

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Há personagens que, ainda que a seu respeito ouçamos uma referência vaga, não esquecemos mais. Venho a reencontrar uma no último capítulo do livro da imagem: história dos vagabundos e andarilhos nas estradas norueguesas, de Thor Gotaas; Werner Fahrenholtz; num pequeno subcapítulo intitulado Vagabundos com Visa? Há uma foto a preto e branco, um homem vestido de peles com um cajado na mão, dois burros pela arreata, três cães, tirada a norte de Moelv. Não adianta o autor grande coisa sobre a sua vida, tirando uns rumores de que teria começado a vaguear impelido por um desgosto de amor, que alguém o teria visto a levantar dinheiro num multibanco com um cartão visa. O livro, publicado em 2001 pouco adianta sobre ele… um nome, Werner, e rumores que sobre ele corriam…

Ouvi pela primeira vez a história a um colega inglês a bordo de um navio; a história de um indivíduo estranho, vestido de peles, tal Robinson Crusoé, que vagueava pela Escandinávia acompanhado de três burros e três cães. Adrian Rouse, o meu colega, contava que lhe apareceu um dia na pequena propriedade agrícola nas imediações de Elverum. Precisava de feno para e cereal para os burros, oferecia em troca trabalhar para pagar o que necessitava. Contava Adrian que lhe deu o que pedia em troca de nada. E contava também o erro que fez, que foi convidá-lo para tomar café e uma pequena refeição na cozinha de casa. Que devia ter calculado que dormindo o homem debaixo de peles e plásticos junto com os burros e os cães, o cheiro que deixou na cozinha demorou vários dias a desaparecer, ainda que com lavagem e arejamento forçado. Não que culpasse o vagabundo. Falava até com admiração daquele tipo de vida. Sabia que era alemão, de família de posses, que tinha desistido da vida que levava e começado a vaguear. Adrian tinha ouvido que tinha sido médico. Nome não sabia…

O livro de Gotaas já adiantava mais qualquer coisa; um nome; Werner. Pesquisei com mais meia dúzia de termos em norueguês, «burros», «cães», «vagear», etc. E finalmente a história aparece num artigo de um jornal local: o Oppland Arbeiderblad «Folha do trabalhador de Oppland».

Marianne Løvlie trabalhava numa máquina de empacotar na fábrica Mustad em Gjøvik, quando viu passar Werner lá fora com os seus cães e burros, num dia de Novembro de 1993. Vestimenta de peles cosida à mão, braços nus. Tinha já lido qualquer coisa sobre ele num jornal local. Com um fascínio por burros, preocupada com saber se o vagabundo tinha comida suficiente para os animais, corre para fora da fábrica e atrás dele pela estrada. Nos meses seguintes visita-o no acampamento. O que era para ser uma viagem de um mês junto com Werner no Verão seguinte tornou-se uma viagem de 18 anos. Casariam mais tarde na Suécia, em Bollnäs,

 Werner, tinha começado a vaguear em 1981 pelo que conta mais 18000 kilómetros andados que Marianne. Trabalhando como engenheiro na Alemanha, com casa e uma vida confortável, rompe com os confortos da vida moderna que lhe deixavam a impressão de tolhimento e, em busca de liberdade, torna-se um pária na sociedade, vagueando na companhia dos animais. O artigo do Oppland Arbeiderblad  de Março de 2013, relata que junto com Marianne fizeram a pé um percurso de 250.000 kilómetros, a pegar em pequenos trabalhos, mendigando, aceitando ofertas, percorrendo 42 países – entre os quais Portugal onde terão trabalhado nas vindimas.

Em Agosto de 2012 a viagem terminou em Velké Raškovce uma aldeia de 300 habitantes na Eslováquia, perto da fronteira com a Bulgária. Uma infecção num pé fez com que Werner  tivesse que ser amputado de uma perna. Dirigiam-se à Mongólia. O objectivo de vida, prefazer um total de quilómetros equivalente à distância da Terra à Lua. Faltavam-lhes 134.400 quilómetros; ou, a vinte quilómetros por dia, 6720 dias. Contas de Werner. Bom, se não a sua princesa levou à lua, levou-a pelo menos ao Mónaco. Imagine-se a sensação que teriam causado no principado.

(Marianne e os burros (Katarin, Moonshine e Diseré) em 2013 em Starum na propriedade de um irmão, enquanto Werner recuperava em casa de familiares na Alemanha.)

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