Cozinha-universidade-casa de comédia; carnes de nome sugestivo, exotismo com toque clássico

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Tenho, por dever profissional, que alimentar os meus rapazes do turno da noite na ponte e na casa das máquinas. Raro é o dia (ou a noite) em que não lhes arme comédia. Hoje, ouviram, assim que saíram do elevador, um norueguês lá de cima da ponte e um dinamarquês lá de baixo da sala de controlo -os dois piratas da quinta casa -, logo um ralhete:

– Vocês, seus desgovernados que gastam o ordenado em bilhetes de avião da Thai e nas casas de putas de Bangkok, hoje vão ver que usando um pouco a imaginação, podemos fazer turismo sexual mais barato. E com um toque de antiguidade clássica. Apresento-vos lábios de cona italiana gratinados!

Apontei a travessa com o bilhete intitulando o acepipe e uma espécie de tradução para italiano onde a palavra cona «fitte» aparece no meio do primeiro ditirambo que me passou pela cabeça escrever. Perguntaram o que era:

– É o que fôr! – digo severo – nem eu sei que é a primeira vez que o faço, comam primeiro e depois conversamos!

Abalaram os dois a rir. Mais tarde, o da ponte, ao passar na ronda de vigia de prevenção de incêndios, diz que estava muito bom. «É italiano?», perguntou.

– Não, calhou. Tinha um pouco de carne moída que sobrou dos bifes tártaros, temos baguettes demais já descongeladas, o primeiro cozinheiro deixou aí um resto de manteiga de alho que usei no refogado, e porque o sabor estava demasiado, forte, picante, optei pelo parmesão para gratinar. Calculei que, pelo travo amargo, atenuasse um pouco. Daí o italiano. Depois explico-lhe que me custa ver boa carne, o o que quer que seja, ser desperdiçada. Que aquilo é mais uma mistura de acaso e de necessidade que de imaginação.

E que, de certa forma, esta minha mania de aproveitar vem também de uma memória de necessidade. Ou de escassez. Falo-lhe de Anne-Lise Seip, da História do Estado Social de Bem-Estar e do relato da investigação dos médicos socialistas Karl Evang e Otto Galtung publicada sobre o título Dieta nas Casas Modestas Norueguesas. A dieta que era tão pobre e incompleta que (segundo os médicos) até os esfomeados tinham perdido o apetite. Falo-lhe do seu velho primeiro-ministro Bratteli que esfomeado no campo de concentração alemão deu ainda assim as extraordinárias conferências de piolhos. E do riso e da pilhéria passa a pensativo, concorda que hoje temos muito. E muito bom. Pelo menos em comparação com o que outros tiveram no passado.

Nem eu percebo bem se aqui tenho uma cozinha, se uma barraca de robertos ou uma universidade aberta e poliglota. Se dou com eles em estroinas (ainda mais do que já são) ou em homens sábios.

 

Sobre soliplass

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