“tudo boa gente” e O Zoo em Odessa

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Aconteceu há cerca de uma década e meia em Odessa. Envolveu um jardim zoológico em dificuldades económicas (rogo-vos que não vejam nisto paralelismo com os sectores beneméritos ligados à instituição eclesiástica) depois do colapso do Império URSS (novamente vos rogo que não tracem paralelismos com o colapso do império PAF), uma professora universitária ao serviço do Estado Françês que muito contrária ao sucesso escolar (o jacobinismo, lá está) e conta-o o jornalista e escritor norueguês Eksil Engdal (preconceituoso para com a iniciativa privada) no seu livro Beserk, publicado em 2004.

Só trago o assunto à colação porque, se hoje sofremos nas nossas ruas exibições bizarras de egoísmo e vulgaridade, outros povos, num passado ainda recente, sofreram-nos bem piores também por culpa dos malefícios e heranças do colectivismo.

O trecho em questão:

“Apressei-me pela rua Dribasovskaya abaixo e não parei até que quase pisei um crocodilo. Devo confessar que era ridiculamente pequeno – mas inegavelmente tratava-se de um crocodilo. Os queixos do animal estavam envolvidos em fita adesiva do género da que se usa na construção e estava ligado a uma trela de cão que acabava na mão de um homem com uma câmara fotográfica.

– Photo, sir?

Não consegui imaginar para que quereria uma foto minha com um crocodilo em Odessa pelo que agradeci com um curto não.

– E com um camaleão? – Perguntou, pondo-me à frente – para que visse – a pequena criatura verde-castanha numa caixinha de papelão.

– Não, Obrigado. Nem com um camaleão. Talvez amanhã.

Pouco depois constatei que a rua Dribasovskaya estava cheia de bichos rastejantes. Crocodilos, caimões, cobras e camaleões. As ruas de Odessa tinham-se transformado numa selva, após a direcção do jardim zoológico de Odessa ter reconhecido que estava a caminho da ruína económica. Começaram então a alugar os animais à sua guarda. Por essa via iam conseguindo uns trocos extra. Além disso davam aos desocupados ou aos que viviam na rua que não tivessem fobias com répteis e com acesso a um aparelho fotográfico, um modo de ganhar a vida.

 (…)

Corri por ali abaixo rumo à Universidade, tinha sido convidado para fazer parte de um painel de discussão sobre a liberdade de imprensa – instituição que ainda não tinha conseguido despontar na Ucrânia. Foi aí, na Universidade que encontrei uma jovem mulher que, por surpresa minha, era originária da ilha Reunião no oceano índico. Nunca antes me tinha encontrado com ninguém de Reunião. Tinha sido contratada pelo Ministério dos Negócios Estrangeiros de França para lecionar Francês em Odessa. Certamente que a invasão de animais selvagens tropicais lhe atenuava a saudade da sua terra natal.

– Eles insistem em dar-me dinheiro a toda a hora – contou a professora.

– Quem?

– Os estudantes. Estão tão habituados a pagar aos seus professores para terem as notas que desejam que olham para mim com suspeição quando eu não quero aceitar o dinheiro. Durante um período de tempo acontecia quase todos os dias. Alguém surgia com um envelope de dinheiro e dizia que era um presente – disse a professora.

– Qual é o problema? Só tens que escolher entre ser rica e popular ou pobre e impopular – disse eu de forma ligeira.

– Alguns dos «melhores» estudantes gozam de um tal nível de conforto e despreocupação que nem se dão ao trabalho de pôr os pés na Faculdade. São originários de famílias ricas. Não é assim que eu acho que deva ser – disse ela.

Fui dali até ao topo das escadas de Odessa. Um cossaco de tivoli esperava que alguns turistas o fotografassem, um outro tentava pôr-me um macaco apático e mal cheiroso no ombro. Seria impossível ver-me livre de animais selvagens nesta cidade?”

Eksil Engdal in Beserk; jakten på Norges råeste konge, Kagge Forlag, Oslo, 2004 (pp. (140-41)

 

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