Evocações

Não sei o que escrevi de certo ou de errado para que regularmente aqui chegue a visitar o blog um leitor da Finlândia. É provável até que não tenha sido nada do que foi escrito, antes algo que, da parte do leitor, foi lido ou interpretado de uma forma pessoal. Nunca sabemos o que as nossas palavras evocam nos outros.

Tenho dezenas de vezes lido no blog do Pipoco  uma frase simples a respeito do romance de Rentes de Carvalho O Meças:

…é mesmo uma história bem contada.

(e é muito desconfortável quase desculpar o fulano)”

O que leio, o que a frase evoca, é diferente do que ele escreveu. Não tem – a não ser de forma muito ténue – nada que ver com a história do personagem em causa. Tem a ver com uma tarde de outono, com o desconforto da minha avó a desculpar um fulano parecido. E a desviar de mim o olhar azul, como que constrangida ou envergonhada, para o ir pousar no pátio de saibro defronte da casa. Como que se culpada por desculpar.

Houve na família um fulano ressentido e violento. Não tinha, ao contrário do personagem do romance, sofrido um trauma do género do miúdo que vê a irmã (que afinal era a mãe) violada. Mas tinha sofrido o trauma de ter sido posto a trabalhar assim que acabou a escola primária. Não foi esse facto em si. Foi o facto de poucos anos mais tarde, ao irmão ter sido dada a possibilidade de ir estudar para o Liceu. Esse sentimento de injustiça sofrida dentro da família causou-lhe uma revolta e uma frustração que a qualquer explodia e causava estragos. Não foi assassino. Simplesmente porque assim não calhou. Não ouvindo os argumentos dos outros, nem as razões de ninguém, tudo lhe causava afronta; a respeito de qualquer ridicularia o assunto sem importância armava discussão virulenta. Não foi só uma vez nem duas que no calor de uma discussão de taberna puxou da pistola. E, não tendo coragem para a usar de imediato, por via de acertos lhe armaram lavoira na tromba. Não ter matado foi um calhar que em havendo coisas com gatilhos é um um piscar de olho. E o álcool, em que se afogou mais e mais ao longo da vida, também não é grande conselheiro ou travão.

Se assim fazia na rua, em casa, onde era senhor e rei, fazia pior. E a minha avó, coitada, ia, palmilhando quilómetros por carreiros e pinhais, no pino do calor, a ver a filha às escondidas. Quando ele não estava. A ouvir, a sentir a dor da filha. Em dobro ou triplo sentir de mãe. Durante quase três décadas. Nem eu sei o quanto soube e quanto ouviu, o quanto adivinhou. Eu ouvia, por ser homem, e neto, da missa menos que metade. Mas sabia ainda o bastante. O bastante para naquela tarde desabafar:

– Do que ele precisava era de uma boa carga de murros dados com pouco jeito a ver se ganhava vergonha.

A velhinha, que tinha sido loira e tão bonita, e era agora grisalha e de uma magreza extrema, olhou-me aflita. Talvez por temer que me fosse eu meter em trabalhos que de nada adiantariam.

– Ai ó rapaz por mor de deusnossenhor’jus cristo, tu nã penses em te meter numa coisa dessas. – E como que distante, envergonhada, desviando o olhos desfocados para o pátio de saibro em frente da porta onde costurava, o saibro iluminado por um sol doce de outono,

– Nim ele vale de nada, uma coisa dessa.. qu’aquele malsoadíss’ma alma do diabo,  aquele infeliz, …deusnoss’nhor me perdoe,… inda é o mais desgraçado da gente todos…

O olhar perdido lá fora no pátio. O da casa onde viveu e lhe crescera a menina.

 

 

Sobre soliplass

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