À patada

Que raio de coisa nos impele a desatar à patada aos outros quando uma opinião que emitem nos desagrada? Usar o sarcasmo, presumir nos outros intenção deliberada de manipular, induzir em erro? Apanhar em falta quem quer que seja que, num instante, tomamos por oponente? Procurar derrubar-lhe o argumento com uma contradição qualquer, com uma informação que tomamos por melhor? Porquê este gesto irreflectido, porquê não dar o benefício da dúvida, porquê não partilhar simplesmente a informação, antes usá-la para agredir?

Quando insinuo que Francisco José Viegas está a usar mal os poemas do Hávámal com propósito de manipular, que certeza tenho eu das intenções dele? Não poderia ter recolhido a informação de uma qualquer fonte não fidedigna, tendo-a tomado por boa? Não poderia ter lido qualquer coisa intitulada «Vámáhal» que eu desconheço e trocado ali as sílabas? Teria metido na cabeça que leu aquilo lá e afinal não? Não meti eu na cabeça enquanto aluno na faculdade que me tinha matriculado numa cadeira que frequentei um semestre, e só depois de ter feito exame e não estar lá nota nenhuma, é que – contactados os serviços académicos – fui forçado a reconhecer que não me tinha matriculado? Que me tinha esquecido e, formalmente, não era aluno daquilo?

Quando finalmente vi o homem uns meses depois – trôpego e cansado às seis da manhã atravessando o hall das chegadas no aeroporto de Lisboa – é que perguntei a mim mesmo a necessidade de ter escrito aquilo daquela forma. Não me lembrava eu das horas e horas de prazer ao ler as suas crónicas do ancião de Moledo que são das melhores crónicas da imprensa portuguesa? E das páginas mais agradáveis da literatura portuguesa?

Quando aqui me irrito com Eduardo Pitta pelo mau uso da chamada «Lei de Jante» não estou farto de saber que é precisamente aquele o sentido que tomou na cultura popular, não o original que lhe deu Sandemose? Que quase toda a gente a ela se refere daquela forma por aqui? Não sei eu até que um cientista social reputado que contribui com um artigo para The Cultural Construction of Norden a ela se refere de mesmo modo, e que os editores (os historiadores Bo Stråth e Øystein Sørensen ), deixam passar essa forma de referência?

Quando aqui ataco de forma demasiado agressiva um homem que desconheço – e que posteriormente fechou o blog – usando uma página de Soljenitsine para lhe derrubar a critica que me desagradou feita daquela forma a Rita Rato -, não poderia ter apenas apontado o erro e partilhado a informação? Não tem o homem uma certa razão a considerar que a deputada comunista tem obrigação de saber o que foi o Gulag? E ainda há por aí outros casos. Posts que não apago para me lembrem o erro cometido.

Estou farto de saber que este hábito, este impulso irreflectido, é um erro e uma parvoíce. Começando à patada aos outros acabo à patada a mim mesmo. Fatal como o destino.

Sobre soliplass

email: friluftogvind@gmail.com
Esta entrada foi publicada em Uncategorized com as etiquetas , , . ligação permanente.