Dias negros de sol

Dia trinta e um de Maio. Depois de dois dias intensos de curso de sobrevivência no mar, meios e técnicas de salvamento, combate a incêndios e mergulho de fumo, primeiros socorros. Dá-me colega (e meu superior hierárquico) boleia de Horten até Oslo. Por surpresa minha, já que mora do outro lado do fjord, pensei que tomaria o ferry para a outra banda. Mas não, vai passar por Oslo a caminho da cabana à beira de um lago, mais a Norte. Coisa que lhe invejo. Há muito tempo que procuro nos sites (como este) uma que a magra bolsa comporte. Como lhe invejo a magnífica kawasaky de três cilindros a dois tempos, recuperada ao pormenor que vejo luzir no cais em dias de sol. Ou o barco cabinado lá das pescas e passeios com que ocupa os dias livres.

A tarde, está magnífica. Umas destas tardes de início de Verão, sol intenso, ar límpido – nos campos e florestas uma explosão de verde. No início de cada Verão, literalmente, a natureza explode de vitalidade e contentamento. Também a humana. Cruzamos os cento e tal quilómetros de paisagem magnífica num potente Volvo de estofos de cor creme. Ouvindo música, enchendo os olhos.

Deixa-me no cruzamento de Kirkevein, despeço-me, sigo pela Shums gate abaixo rumo ao pequeno cubículo, que aluguei em Sofiesplass. Onde nada tenho, que não os móveis desirmanados que amigos me deram, duas bicicletas (uma ferrugenta) um par de skis. Livros de segunda-mão.

É um dos bairros bonitos de Oslo, este da rua Shums, com os seus jardins, as árvores bem-cheirosas neste tempo, os carros de alta cilindrada estacionados nos passeios. Uma elegância tranquila. De janela aberta saem acordes de um concerto de Albinoni, num jardim o Border Collie com o pau nos dentes é perseguido por bola de pêlo minúscula que ladra frenéticamente. A menina, arrastando a trotinete, o capacete de esguelha sobre a cabecita loura, aos gritos de contentamento na brincadeira com os dois animais. Um carrossel de brincadeira. Festejando o Verão. A mãe ri.

De um jipe bmw, saíu uma mulher de uma beleza delicada que aparenta trinta anos. Traz a filha numa anca, abre a porta de trás de onde sai o miúdo de cinco ou seis que a primeira coisa que faz é assentar o skate no passeio. A mulher segura-o pelo ombro para que não se atravesse na minha frente. E sorri, como que pedindo desculpa. Baixo os olhos, incapaz de responder ao sorriso.

Venho com o cabelo empastado, carregando um saco ao ombro, cheiro mal a suor. Ao segundo dia, as roupas de isolação interior de lã – que usamos debaixo do uniforme de bombeiro – ainda encharcadas de suor do dia anterior, cheiravam mal. E pior ficaram. Tensão, respirar de uma garrafa, esforço físico dentro de um compartimento escuro onde sabemos que o ar à nossa volta está a trezentos ou quatrocentos graus, pensar que se um dia nos calha um inferno daqueles sem uma porta de escape ali a dois metros…

E baixo os olhos ao sorriso que ela me oferece porque sei que não vou ser capaz de conter as lágrimas ao ver o rapazito que segura pelo ombro. Venho assim porque a vida, ou a sorte, a uns tanto dá e de outros tanto tira…

O meu colega que me deixou no cruzamento insistiu em trazer-me ao centro de Oslo, perdeu uma hora no percurso. Vem alheado, não mostra pressa em chegar ao destino. A qualquer cabana na orla de um lago, no meio de uma floresta (nunca a vi, não sei como é) onde viu correr e brincar o filho único que, jovem adulto, lhe morreu vai para três anos em acidente de viação. Serão para ele os mais tristes. Estes dias festivos de verde viçoso e sol.

Sobre soliplass

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