Genético

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Um desastradão. A mulher acusa-o disso. Mas um desastradão desarmante. Hoje, porque eu lhe tinha mostrado os bancos que o meu colega tinha feito para o pai convalescente ao longo do caminho entre árvores em Finnerödja, vinha com o livro de Kerstin Ekman  –Senhores na Floresta -, um belíssimo e volumoso (cerca de 500 páginas) tratado sobre a história, flora, fauna, encantos, da floresta nórdica. Aparece-me com aquilo para que eu o dê rapaz que não conhece nem nunca viu. Mas gostou dos bancos e da história.

E aparece-me de calções, ostentando na perna direita um hematoma de todo o tamanho, a canela toda lavrada. Que errou um degrau ao dar mais uma demão de protector na escada que lhe construí. Não é nada. E ri. Conta que o gaio, o Nøtteskrike, (Garrulus glandarius) o nome engraçado que nesta língua soa a «apregoador de nozes» ou «o que grita por nozes», o que sempre alimenta com o que leva de casa, se lhe pousou na cabeça. E ri, contente, da cabana que mete cobiça, das coisas que fui construindo e reparando e que para ele sempre estão bem. Optimismo infantil, alegria que às vezes parece injustificada, trapalhão de gestos, expansivo.

Um dia destes, ao ler a história do Grupo de Oslo, porventura um dos melhores grupos de sabotadores de que há memória, dei com uma passagem que pode fornecer uma explicação: é capaz de ser genético.

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Encontro, numa passagem da história do Oslogjengen, o relato que revela que o seu pai teria sido um pouco assim. Na tentativa de escapar do país para se juntarem à resistência, o pai, o líder lendário Gunnar Sønsteby (que quase tinha perdido as pernas com queimaduras de gelo ao tentar atravessar as montanhas uns meses antes, no outono de 44), e um terceiro, percorrendo a floresta gelada, julgavam-se já em território sueco. O pai  (o jornalista e escritor Åke Fehn) desata a cantar num júblilo ruidoso, por ocasião de breve descanso para fumarem um cigarro. Até que viram o famoso placard dos alemães: «Serão abatidos a tiro aqueles que…». Ainda não tinham alcançado a fronteira. Seguiram sorrateiros em silêncio.

Talvez seja genético aquela alegria infantil, a benevolência. Talvez aquela cabana e a floresta lhe lembrem dias de infância quando pouco via o pai ocupado em reconstruir o país, ou a mãe, destacada em Nova Iorque ocupada em construir a ONU. Como secretária pessoal do primeiro Secretário da organização. Talvez por não haver já nas árvores sinais informativos «Serão abatidos a tiro aqueles que…».

Li a história do grupo de Oslo a semana passada. Durante a tarde, a horas que a colega sabia serem as que costumo dormir, pergunta «o qu’é que tás a fazer levantado pá?» Explico que estou a ler aquilo que de tão interessante espanta o sono. Vim só por café e ler os mails. «Mas porqu’é que andas sempre a ler essas merdas pá?». Pergunta. Essas merdas são a história de outro país. Encolho os ombros; sorrio da pergunta que meio censura, meio reprova. É bem capaz de ser genético.

 

Sobre soliplass

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