Imaginações, jornais

 

(…) Adelermo era a imaginação do jornal. Nascera no Maranhão e escrevia regularmente. Apesar de nunca se ter feito notar por uma associação mais original de idéias, no jornal era imaginoso porque nascera no Norte e tinha uma boa dose de sangue negro nas veias. As generalizações dos jornais são infalíveis…

Mas… Adelermo era a imaginação do jornal, e em seus ombros recaia todo o peso da necessidade de informações imediatas ao público quando os documentos faltavam ou eram omissos.

Se havia um atentado anarquista ou um terremoto na Europa e o telegrama era por demais conciso, Adelermo tinha o encargo de desenvolvê-lo, de explicá-lo, de reconstruir a cena para o gosto público. Às vezes, pediam-se-lhe mais detalhes; o diretor queria a descrição do complot, a cena da “sorte”, à lôbrega luz de um fumarento lampião, em uma mansarda.

Adelermo era obediente e fazia. Intimamente desgostava-se com aquele papel de mentiroso; mas temia ser despedido, posto na rua. Era esse o grande terror de todos. Não eram os ordenados, não era a miséria que os apavorava; temiam não encontrar outro lugar nos jornais e perderem por isso a importância, a honra suprema de pertencer ao jornalismo. Eles não valiam por si; o jornal é que lhes dava brilho.

Nas invenções de Adelermo, quase sempre se passavam coisas fantásticas e curiosas.

Havia então complicações de topografia, ruas metidas umas nas outras; mas o terremoto que a potente imaginação de Adelermo levava às grandes cidades da Europa, passava completamente despercebido ao público e ninguém, dias depois, se lembrava de cotejar as noticias dadas pelo O Globo com as que vinham nos jornais da Europa. (…)

Lima Barreto, in Recordações do Escrivão Isaías Caminha

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