Papagaios de Domingo

 

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No mar Skagerak, ao largo da costa sueca, aproveitando a última luz do dia no dekk ventoso e frio, mantinha de lã pelos joelhos tal ancião, releio a obra-prima do naturalismo brasileiro. O Cortiço, de Aloísio de Azevedo. Detenho-me no famoso domingo de Abril – muita luz e pouco calor (do cap. VI) –  em que o cortiço rejubila. Onde figura a passagem «Os papagaios pareciam também mais alegres com o Domingo e lançavam das gaiolas frases inteiras, entre gargalhadas e assobios. À porta de diversos cômodos, trabalhadores descansavam, de calça limpa e camisa de meia lavada, assentados em cadeira, lendo e soletrando jornais ou livros; um declamava em voz alta versos de Os lusíadas, com empenho feroz, que o punha rouco.»

Comprei esta edição de bolso há coisa de duas semanas. Descendo do sebo, ali no semáforo (ou sinaleiro, segundo os indígenas) entre a Rui Barbosa e a Isabel a Redentora, um rapaz magro e de roupas encardidas, sapatilhas esgarçadas, espera que o trânsito se detenha. As argolas e os pinos prontos nas mãos. Faz malabarismos, recolhe as esmolas depois nas janelas dos automóveis.

Vejo nele, enquanto me detenho no passeio a observar, o retrato de tanta da bloga. Jongleurices com palavras, tautologias habilidosas, contorcionismo de ar. Ir por alvíssaras em janelas do SiteMeter.

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