Literatura a engraxates e botas de Alcanhões

 

Botas ribatejanas de Alcanhões são azougue de engraxate. No tempo em que os havia em Guarulhos (S. Paulo) um deles, caixinha de madeira, lustrava na mesa ao lado onde três executivos abancavam. Com todo o esplendor da vulgaridade o fulano de cinzento, proseando com os colegas de mesa, estendia o pé. O puto afadigado com o pano no sapato preto. Canto do olho nas botas castanhas de Alcanhões, pressentindo negócio.

De perna trocada, tomando um café a fazer horas para o vôo, lendo um livro e com mais dois ou três em cima da mesa, fatalmente o próximo. «Engraxar siô?». Mulato, dez ou onze anos. «Tu tem castanho?». Tinha sim. «Quanto custa?» Oito reais. «é pouco piá! Tem que levar dez» Pé no chão, livro na mão, olhar nos olhos, já ele sentado sem conseguir desviar o olhar do português camisa verde de cóboy despotada Marlboro Classics, escova e graxa pronta. «Tu vai na escola meu filho?». Ia. «gosta de ler livros?» Sim, hesitante. No bloco, escrevi «Firmin – Sam Shepard». Rasgada a folha, «tu me faz um favor?» Da carteira a nota de cinquenta reais, em cima da folha rasgada e estendida que apanha, pousada a graxa. Tu vai ali na livraria ao lado e me compra isto?

Foi. Quando chegou já as botas engraxadas, debaixo do olhar e supervisão dos executivos ao lado. Estende o troco e o livro. Não aceite, que compre um pão de queijo e um refri. «tu sabe que história é essa?» Explicado que é de um rato que vive numa livraria, «tu sabe que com esse livro tu pode ler todos os livros que quiser e ficar doutor que nem esse aí?» Olhar surpreso. «é!!… quando acabar de ler tu vai no sebo e troca esse por outro» «e depois por outro» Olhando as botas já no chão, olhar que ele segue, «ficaram boas?». Já o puto tá confuso, não sabe o que responder, concorda. Da carteira mais a nota de dez que aceita. Pra pagar o material…

Os executivos da mesa com um melão do caralho a ver que o negócio era com eles e a perder, meio café do aeroporto a gozar o prato. O puto perdido em timidez. A sentir talvez que está a desobedecer aos do lado. Não aprendeu o gozo de coisas daquelas. Provavelmente a primeira. De livro em livro, trocando em sebo, um dia chega lá.

.

Sobre soliplass

email: friluftogvind@gmail.com
Esta entrada foi publicada em Uncategorized com as etiquetas , , , , . ligação permanente.