Ar de gente

Por uma destas tardes portuguesas de calor, na velha cervejaria O Abegão em Santarém, conversávamos umas imperiais; eu e o meu caro engenheiro Vicente. À porta, que tinha um degrau de altura considerável, apareceu um homem da entrega de cerveja, um carrinho de rodas com uma pilha de grades mais alta que ele. Que era baixo. Rapaz despachado, levanta-se o engenheiro Vicente direito à porta a ralhar com o homem:

– É pá, porque é que você não pede ajuda? Não vê que pode dar aí um mau jeito às costas?

O outro,

– Pois é, mas não gosto de incomodar…

– Tá bem, -respondeu o engenheiro Vicente – com isso que por aí está sentado não se incomode. Mas quando vir assim dois gajos com ar de gente peça ajuda!

Incluiu-me também a mim naquela classificação a que chamou “com ar de gente”. Coisa que raramente vejo em mim próprio.

Hoje, ao fim da manhã, em Kiel no norte da Alemanha, chovia a cântaros. Apesar do turno de 14 horas de trabalho – uma noite de doidos – tinha que ir à florista de Sophienhofa mulher de um amigo em Oslo regressou a casa convalescente de uma intervenção cirúrgica. Um bouquet de rosas virá a propósito amanhã quando chegar à Noruega.

Estafado da noite, a barba por fazer, acho-me na florista a escorrer água, produzindo uma pequena poça no chão, enquanto ela ri do tempo e prepara as flores. Trazia chapéu de chuva, é certo. E um blusão fino impermeável vestido. Que de nada valeu. À saída do terminal marítimo um rapaz de vinte e poucos aborda-me e fala-me em alemão. Que não entendo muito bem. Mudada a conversa para inglês, pede-me se lhe protejo o saco de viagem preto com um logotipo The Nort Face. Vai, conta-me, até à estação de comboios, no saco está a roupa com que irá amanhã a uma entrevista de emprego em Düsseldorf. E seguimos os dois desprotegidos a escorrer água, o saco ao abrigo possível do chapéu de chuva. Agradece-me, já na estação de comboios, com um aperto de mão. Sigo para a florista.

Em cima do charco de água que produzo, enquanto ela compõe as rosas, sorrio a lembrar da frase do meu engenheiro Vicente e da sorte de o ter tido uma vida por amigo. Talvez, depois de todos estes anos, o rapaz da entrevista tenha achado em mim que ainda conservo um ar de gente. Se assim foi valeu a molha.

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