A tecnologia como cachimbo da paz

.img_20170122_123350_1_burst001_cover

Nunca desisti do papel. Do livro impresso. Mesmo de um determinado livro, como este batido all of us de Carver. O de cima que tinha desaparecido nas estantes. Comprei uma outra edição depois, mas o velho paperback é insubstituível. Associado a um episódio breve mas que nunca esqueci. Há coisa de uma década e meia, quando o começava a ler antes da partida do avião, no exterior do aeroporto de Gardemoen, um jovem casal sujo e de roupas batidas, mochilas no chão, sentados na poeira ele e ela. Cabelos compridos e descuidados. Beijavam-se ao sol de Maio. Entre eles, à roda deles, cirandava uma menina, a boquita e os dedos lambuzados de chocolate castanho. Entre beijos sorriam para a filha, alheados do mundo. Hospedeiras de avião passavam com olhar reprovador e cara severa em cima dos saltos altos, dentro dos uniformes de porteiro ou circo. Lembro o encanto de ver aquilo, de pensar que se a Sagrada Família viesse ao mundo nos dias que correm, seria algo do género daquilo que me encantava e que às hospedeiras causava desagrado.

Sou do papel. Velho ou novo, poeirento ou manchado. Mas reconheço a utilidade da tecnologia. Dos smartphones. Em muitos casos são pacificadores. Potencialmente integradores. Há tempos contava-me um amigo que no tempo da caça aos Pokemons via da sua janela em Tonsenhagen que até os odiados muçulmanos, as mulheres de burka e os filhos conviviam com os dolicocéfalos nórdicos perseguindo a caça virtual.

Muitas vezes, por economia de tempo, para me poupar à chatice de cozinhar subo ao restaurante costumeiro. O telefone, num restaurante com wi-fi tem ajudado na pacificação social.

Lembro o fim de tarde no Verão passado em que estacionava a moto. A meu lado, três donzelas passadas dos quarenta tentavam estacionar no espaço restante o bmw que tinha sido cinzento. De má-cara. Rude e musculado, unhas sujas, aspecto de servente de pedreiro, roupas velhas, há por cá essa espécie de desporto de me mostrarem má-cara. Entraram, puxando para baixo as blusinhas de licra do chinês sobre as ancas. Rezei para que não tivesse que me sentar ao lado de tal fauna. Particularmente agressiva para  género de gajos que fazem drikketraus, se por negligência ou descuido os nossos olhos lhes pousam um segundo nas rugas do pescoço, é horrífico crime de lesa-majestade. O telefone inteligente resolve esse problema. Podemos ler, ao mesmo tempo que jantamos, a elegância da Gaffeas novidades do Arroudbooks,  as crónicas do Daniel.

Naquele dia resultou na perfeição. Sentado na mesa ao lado das senhoras, enfronhado em leituras, não larguei olhos do telefone; divertido de as sentir descontraídas procurei o all of us de Carver no google books. O olhar reprovador lembrou-me o outro das hospedeiras à Sagrada Família sentada na poeira no exterior de Gardemoen. E elas nas sete-quintas, sem peias ou pudores, puderam confidenciar entre si extorsões a ex-maridos, carros que não vão à revisão pra dois anos, cunhas para o emprego dos filhos, que não vai dar pra fazer praia, algarve nem pensar… pagar com o cartão, evita a gorjeta…

O telefone inteligente como cachimbo da paz. E o acesso (em duas línguas, com a tradução de Spadaro) já divertido, ao poema de Carver e ao último verso de  The pipe:

Comincerò a fumare la pipa.

.

Sobre soliplass

email: friluftogvind@gmail.com
Esta entrada foi publicada em Uncategorized com as etiquetas , , , . ligação permanente.