Ulisses de quatro patas

Antes que o despertador toque acordam-me os ladridos no andar de baixo. Por baixo do meu quarto, no apartamento da vizinha, um cão e uma cadela ainda jovens ladram um ao outro. A vizinha, a dona, saiu já para o trabalho, divertem-se os bichos sozinhos. Ou protestam. Como protestando vai o resto da vizinhança por se ouvir ladrar cá no prédio.

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Passou-se aqui, nesta esquina de Santarém, a dois passos da velha muralha e porta de Atamarma, onde funcionava uma escola de condução, em finais dos anos 1940 (47? 48?) a história de fidelidade canina que levava o meu pai às lágrimas de cada vez que a contava. Lembrou-me ontem novamente ao passar pelo local e tirar a foto ao prédio da escola do «Manel da Guia», onde o meu pai tirava a carta de condução. Todos os dias fazia cinquenta quilómetros de bicicleta para assistir às aulas, seria, um pouco mais novo talvez, este rapaz da foto.

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Tinha um rafeiro de perna curta (o Farrusco), caçador exímio. Vivo e esperto. Tão vivo e esperto que irritava a minha avó materna, mulher quezilenta e envinagrada. Um dia que lhe conseguiu roubar duas chouriças de dentro de um tacho de barro de uma prateleira alta, sem que até hoje alguém saiba como conseguiu não partir o tacho que encontraram no chão já, a mulher teria perdido as estribeiras; deitando mão a uma broca de pedra que o meu avô usava na pedreira, desferiu o golpe mortal ao cão. E errou, por sorte dele.

Para lhe proteger a vida, para não ter que se zangar a sério com a mãe, o meu pai pediu a um amigo que lhe arranjasse dono para o cão. Longe, o mais longe possível. E o outro arranjou. Em Maria Vinagre a quase trezentos quilómetros (por estrada) dali. Lá o levou, numa camioneta Krupp, de noite, até ao local onde ia carregar barris de resina. E os meses passaram, o meu pai resignado, a minha avó esquecida do caso…

Até ao dia em que um outro aluno da mesma aldeia subiu ao andar de cima da escola de condução e interrompeu a aula de código. « Ó Baleizo! desce cá abaixo que tens ali uma visita!». Aflito, cuidando tratar-se de notícia de tragédia, morte de familiar ou coisa do género, o meu pai desceu. E ali estava o Farrusco. Magro, contente de reencontrar o dono. Até hoje ninguém sabe o percurso que fez durante as semanas que lhe durou a viagem de volta ao dono e a casa. Que pontes atravessou, que estradas ou carreiros tomou rumo a norte. Como soube que caminho tomar se a viagem de ida foi às escuras dentro do Camião. Como em toda Santarém descobriu pelo faro o rasto do dono até à escola de condução.

Vaidoso da amizade do cão a quem deu comida e água, o  meu pai atou-o à bicicleta com um cordel e pedalou para casa. E à chegada, à minha avó ditou a sentença que encerrava o caso. Ou o cão entrava, ou ele saía. Enquanto vivo fosse não se separaria do cão, nem que, preciso fosse, comessem do mesmo prato. Durante parte da vida ouvi-lhe repetir a história daquele Ulisses de quatro patas. Não a ouvirei mais com o som da sua sua voz. Pontuada pelo seu riso ou comoção.

Tendo ouvido os zunzuns e as queixas aqui no prédio, há umas semanas bati à porta da vizinha do lado e de baixo (o apartamento em que vivo, duplex, fica ao lado e por cima) os cães apareceram à porta. Disse-lhe (ficando ela aflita) que os ouço ladrar pela manhã. Mas que pela minha parte pode ter todos os cães que quiser em casa, havendo protesto cá no prédio, eu estarei a seu lado a defender o direito a animais de companhia. E que os ladridos de animais que brincam, para mim são música. Um dos sons mais agradáveis que posso ouvir. A mesma e saudosa música da casa da infância.

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